Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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11 de maio de 2011

Matando Crianças

(esta postagem deveria ter sido publicada em 11/04, mas, em virtude do clima sombrio da época e devido ao meu medo de não ser corretamente interpretado, arquivei para 30 dias depois, o que, inclusive, me deu tempo para acrescentar ideias; o que não deixa de ser irônico, uma vez que, em sua essência, este texto fala de auto-censura.)

Esta é uma daquelas postagens que estavam na minha cabeça quase desde o início do Retina Desgastada. Nunca escrevi porque faltava um rumo, uma conclusão satisfatória. Lamentavelmente, a ocasião surgiu e agora eu sei como terminar o raciocínio. Esta postagem é sobre matar crianças. Na ficção, que fique claro para aqueles que não lêem mais do que o primeiro parágrafo de cada texto.

Fallout 2 - Tiroteio

Nos idos dos anos 90, durante minha jornada em Fallout, meu personagem acabara de chegar à cidade de The Hub e foi cercado por um grupo de crianças curiosas fazendo uma grande algazarra. Depois que elas foram embora, fui informado de que tinha sido roubado. Nas duras condições do mundo pós-holocausto nuclear, você faz o que é preciso para sobreviver, seja furtar ingênuos viajantes ou vender carne humana ou escravizar seu semelhante. Eu poderia ter guiado meu personagem em direção a uma solução mais drástica, mas, diante de tantas outras mazelas mais relevantes naquele universo, deixei o caso para lá. Em Fallout 2, porém, durante um dos sangrentos tiroteios em turno que eram a alma tática do jogo, uma de minhas balas errou o alvo e acertou uma criança que estava passando na rua. Dali em diante, o jogo rotulou meu personagem como "Child Killer" ("Matador de Crianças") e, onde quer que eu fosse, essa acidental fama sinistra me prejudicava. Após muitos atos heróicos e outros rótulos aplicados, consegui melhorar a minha imagem nas Terras Devastadas.

E essas foram as últimas vezes em que vi crianças em jogos.

Por algum consenso secreto entre os desenvolvedores, o fato é que ninguém mais teve coragem de retratar crianças em jogos eletrônicos. Descontando-se mutantes, fantasmas, possuídos ou demônios em forma de infantes, é claro. Mas, crianças normais? No dia a dia? Indo para a escola? Andando pelas calçadas? Impossível de se encontrar, mesmo em títulos que se orgulham de retratar mundos abertos e "realistas". Morrowind, qualquer GTA, Risen,  qualquer Gothic. Nenhum deles. O motivo é o medo do "Child Killer".

Morrowind - Crianças? Só via mod.

Temos exemplos de crianças morrendo na música. Temos exemplos de crianças morrendo na literatura. Temos exemplos de crianças morrendo nos quadrinhos. Temos exemplos de crianças morrendo no cinema, seja um incensado drama nacional ou uma diversão "escapista" hollywoodiana. Em todas estas mídias, a morte de uma criança pode inclusive ser o motor central de sua narrativa. Em todas estas mídias, a decisão de quem vive e quem morre cabe exclusivamente ao seu autor e nem por isto eles sofrem censura ou auto-censura (quando a liberdade de expressão prevalece). Entretanto, se o trailer de um jogo mostra a morte de uma criança, ligam-se as sirenes e as patrulhas ficam em alerta. Mesmo que, no tal jogo, ao que tudo indica, mais uma vez as crianças não serão retratadas. Mostrar crianças fora do estereótipo de anjos imaculados também é território proibido para os jogos, não importando quantas vezes esse caminho tenha sido trilhado na literatura, na música, nos quadrinhos ou no cinema nacional ou estrangeiro. Está claro que jogos eletrônicos estão recebendo um tratamento diferenciado do recebido por outras mídias.

Cabe aqui uma pausa para explicar que não esta postagem também não é sobre a defesa da criação de um "simulador de Child Killer"! Mas tal jogo seria um atentado ao bom gosto, na pior das hipóteses, e não a chegada do Anticristo. Por que estamos falando de pixels. Estamos falando de fantasia. Estamos falando de ficção. Já existe um nome para aqueles que confundem o mundo real com o imaginário, nós chamamos de "loucos". Já existe legislação e ampla literatura médica para tais casos.

Sempre Apontando os Culpados

Em todas as demais mídias, a separação entre emissor e receptor está claramente delineada no imaginário coletivo. Mesmo quando a obra se torna "colaborativa". Se eu alterar a letra de uma música para algo mais ofensivo à opinião pública e cantá-la em voz alta na rua, de quem será a culpa? Minha ou do compositor original? Se eu editar Crepúsculo no Adobe Premiere e introduzir algumas cenas pornográficas, de quem será a culpa? Minha, do diretor do original ou de Stephanie Meyer? Se eu remover as últimas páginas de "João e Maria" e escrever com caneta no final que elas são cozidas e devoradas pela bruxa, de quem será a culpa? Minha ou do autor? Se eu vender na internet essa nova versão de "João e Maria", deverá a Justiça e os jornais irem atrás dos irmãos Grimm? Se você tem bom-senso, você acertou as respostas. Caso contrário, você está culpando as pessoas erradas.

Rule of the Rose Por medo de levarem a culpa por aquilo que um jogador pode fazer no recesso de seu lar, as produtoras não colocam crianças nos jogos. Não há crianças nas ruas povoadas de Liberty City porque algum Zé das Couves pode passar de carro por cima delas, dos pixels, e a Rockstar ser acusada de "permitir" tal atrocidade. Não há crianças nas ruas povoadas de Balmora ou Vivec porque algum Zé das Couves pode cortá-las com sua espada e a Bethesda ser acusada de permitir tal atrocidade. Não há crianças porque algum jornalista preconceituoso pode acreditar que ferir pixels é o primeiro passo para ferir pessoas. Não há crianças porque alguma mãe ou pai pode jogar a culpa nos fabricantes de jogos e não no seu "pimpolho", que tomou a iniciativa de usar a ferramenta para fazer aquilo que não faria no mundo real. Para que as equipes de desenvolvimento iriam então programar crianças imortais, gastar tempo e dinheiro fazendo os modelos em 3D, criar travas de segurança e depois ainda ter que pagar advogados? Ainda que parte do controle desta "nova" mídia não repouse mais nas mãos do criador, mas nas mãos do consumidor, ainda assim é o primeiro que responde nos tribunais sobre os atos do segundo em sua obra de ficção. O emissor está com medo do receptor.

Por medo, deixamos o realismo de lado e criamos mundos ainda mais falsos do que já são. Por medo, deixamos de humanizar nossos espaços virtuais com o brilho e a jovialidade das crianças. Por medo, deixamos de debater questões pertinentes e tapamos nossos olhos para possibilidades narrativas. Por medo, chafurdamos em representações infantilóides da indústria e do público.

Quanto retrocesso desde a época em que a Interplay tinha peito para mostrar crianças roubando dentro de um contexto inteligível. Uma época em que os jogadores tinham opções e podiam entender a consequência de seus atos. Uma época em que seu personagem podia carregar a vergonha de ser um "Child Killer" sem que ninguém abrisse um processo contra a produtora ou tentasse proibir o jogo. Uma época em que um indivíduo tinha que carregar a vergonha de ser um matador de crianças, sem que ninguém tentasse culpar outros pela sua loucura.

Ouvindo: The Mission - Butterfly on a Wheel (Troubadour Mix)
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10 comentários:

Anônimo disse...

Em Deus ex vc tambem pode matar crianças, inclusive os npcs reagem a tal fato.Fallout 3 as crianças são invenciveis,portanto só com mods. Divine divinity vc não mata crianças, mas ve uma morrendo e etc.Sou totalmente a favor do homicidio de crianças em jogos, porque o contrario é pura hipocrisia.

C. Aquino disse...

Sabe que eu tinha me esquecido dos garotos em Deus Ex? E nunca me ocorreu tentar atirar neles... Mais um ponto positivo para o universo criado em Deus Ex. Neste ponto, Fallout 3 é um retrocesso em relação aos anteriores. E Divine Divinity é um jogo belga, muito longe da moralidade limitada dos norte-americanos.

Carlos disse...

Em Ultima VIII você pode "matar" crianças, mais se fizer isso o feiticeiro da cidade matar você (bem justo, não?)

Marcos A. S. Almeida disse...

Anônimo,mesmo que não seja ilegal ou em última análise , imoral ( como Aquino disse, são pixels) mas convenhamos é de extremo mal gosto e pode-se evitar.E em tudo na vida deve existir limites mesmo que eles não sejam feitos por governos, entidades e afins.O bom-senso e o bom-gosto serão sempre bem-vindos.Provavelmente alguém adoraria um simulador virtual de estupros e se alguém fizer estará no seu direito mas é de bom-gosto?É de bom-senso?Convenhamos que não.

C. Aquino disse...

Eu estou imaginando que o anônimo tenha dito que "Sou totalmente a favor da possibilidade do homicidio de crianças em jogos" e não "Sou totalmente a favor do homicidio constante e irrestrito de crianças em jogos"; o que são duas coisas diferentes. Bom senso e bom gosto variam de sociedade para sociedade, de indivíduo para indivíduo. Nem me passou pela cabeça atirar nos garotos em Deus Ex, por exemplo. Mas está na hora das produtoras pararem de temer o que a opinião pública pode pensar a partir de uma decisão que foi tomada pelo jogador.

Marcos A. S. Almeida disse...

Aquino,eu tinha CERTEZA que alguém iria utilizar esse argumento de que varia de sociedade para sociedade.Os jogos são focados em um nicho de mercado, o público alvo e esse público alvo é em sua maioria de países em que a religião têm uma forte influência na formação moral do cidadão.Portanto as chances desse bom-senso e bom-gosto serem relativos dentro desse nicho são pequenas.Então para a MAIORIA que consome é de mau-gosto o assassinato virtual de crianças.Mas veja bem Aquino, o meu raciocínio é de dar liberdade de escolha para o indivíduo , se mata ou não uma criancinha no jogo.Só friso mais uma vez que acho de péssimo gosto dar essa possibilidade DESNECESSÀRIA ao jogador.E as produtoras , acredito eu, pensam da mesma forma, por isso o pudor em colocar criancinhas expostas ao assassínio.Resumindo:acho que definitivamente não se deve proibir, mas acho firmemente que deve ser evitado.

C. Aquino disse...

"não se deve proibir, mas acho firmemente que deve ser evitado". Fechou a questão! O problema é que, por temer a reação dos que só enxergam a possibilidade mórbida do infanticídio, as desenvolvedoras não estão colocando NENHUMA criança. Mas parece que Skyrim vai quebrar o tabu, resta saber como eles vão lidar com o risco.

LocoRoco disse...

Acho que cai na mesma problemática do sexo nos jogos, se bem que quando fala de sexo no videogame ai que a hipocrisia rola solta. Mas na minha opinião, se não vai contribuir para história, realmente, e para a jogabilidade, não tem por que colocar, assim como inúmeras outras coisas. No caso de matar crianças, o fallout conseguiu unir a jogabilidade, onde o Aquino ficou conhecido como matador de criançinha e ele ficou mal por isso e criou todo um problema.
A questão é ter coragem para colocar na jogabidade.

Anônimo disse...

Acredito que quando o assassinato de um grupo social(sejam eles crianças ou negros)é visto com maior pudor pela sociedade e o assassinato de grupos digamos majoritarios(adultos brancos ou pessoas demonizadas, sejam elas zumbis ou terroristas)são visto com menos pudor, então alguma coisa está muito errada com essa sociedade.

C. Aquino disse...

ATENÇÃO: O serviço Blogger saiu do ar entre quinta e sexta e, quando voltou, perdeu postagens e comentários que haviam sido feitos durante a quinta-feira. De TODOS os blogs do mundo que usam a plataforma. O Retina Desgastada perdeu uma postagem (que eu subi novamente, graças a uma cópia local) e diversos comentários, a maioria deles justamente nesta postagem tão polêmica. Infelizmente, não tenho como recuperar os comentários e fico na expectativa do Blogger conseguir resgatar este conteúdo, o que foi prometido para este final de semana.

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