Retina Desgastada
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26 de abril de 2011

Jogando: Delta Force - Black Hawk Down

Delta Force - Black Hawk Down Em meu primeiro contato com a série Delta Force, da Novalogic, eu levei um susto muito grande. Acostumado à galhofa de Duke Nukem 3D, Shadow Warrior e Blood ou os monstrengos exagerados de Quake, eu me surpreendi com um jogo onde o barulho das armas era autêntico e onde um tiro poderia colocar meu avatar no chão. Ao invés dos confrontos à queima-roupa em corredores apertados, eu tinha gigantescos cenários a céu aberto e meus inimigos eram quase bonecos de pauzinho no horizonte, vítimas fáceis da mira sniper. No lugar da esquiva para os lados e o dedo preso no gatilho, barriga no chão e disparos cirúrgicos. Esse pessoal do Comando Delta é nervoso! Nada de alienígenas, zumbis ou demônios de outra dimensão, os Deltas almoçam traficantes colombianos e jantam separatistas chechenos. Naturalmente, em meu primeiro contato com Delta Force, eu fiquei impressionado.

Com o passar do tempo, fui percebendo as falhas da série. De todas, a mais grave é a inteligência artificial. Quando o tiroteio começa, a impressão que se tem é que se chutou um formigueiro, com formiguinhas correndo sem sentido para todos os lados e atirando em todas as direções, menos na sua. O que é vantajoso, porque um único tiro pode acabar com seu jogo. Por anos, eu me iludi achando que isto retratava a falta de treinamento dos bandidos, o despreparo e o medo. Mas eu fazia vista grossa aos companheiros de equipe dotados da mesma incompetência artificial. Na maioria das missões, eu fazia meu serviço, sem me importar com quem vivia ou não do resto do time. Existe também quem acuse a série de ser um simulador de "estande de tiro", onde você fica parado em um canto, derrubando inimigos distantes. Procede, mas eu gosto.

O que nos leva à Operação Serpente Gótica. E um conflito de interesses.

Delta Force Black Hawk Down 04

"-Homem de cinza qual é sua missão?"

Delta Force Black Hawk Down coloca o jogador na Somália, em 1993, durante os eventos que levaram à famosa Batalha de Mogadíscio. Nesta época, o ditador Mohamed Siad Barre acabara de ser deposto por diversos grupos rivais liderados por Mohamed Ali Farrah Aidid. Infelizmente, Aidid não era uma unanimidade entre os opositores do regime anterior e o país foi palco de uma guerra civil assolado por milícias. Forças pacificadoras da ONU foram enviadas à região, mas não deram conta do recado. Em outubro de 1993, o presidente Bill Clinton mostrou que Republicanos e Democratas são todos iguais e também curtem uma guerra, autorizando o envio dos Rangers e do Delta Force pra Somália.

Mas nem tudo se transformou em flores quando os Deltas chegaram. A princípio o jogador participa de missões simples, como escolta de comboios de alimentos da ONU, localização de arsenais ou captura de elementos-chave nas forças de Aidid. Neste ponto, o jogo mostra que buscou um novo viés em relação aos títulos anteriores. É possível controlar metralhadoras .50 no topo de veículos ou fazer a festa com a metralhadora giratória de um helicóptero Black Hawk. Além disso, a inteligência artificial dos soldados que o acompanham está melhorada: eles já conseguem seguir o personagem principal sem dar muita bandeira e acertam alguns milicianos aqui e ali. Saem de cena também as amplas paisagens e entra o aterrador cenário das batalhas urbanas, com inimigos se escondendo em tudo quanto é canto. Mas isso é apenas uma preparação para a Operação Serpente Gótica.

Delta Force Black Hawk Down 01 Delta Force Black Hawk Down 03

Durante uma missão de captura de comandantes inimigos, acontece o impensável: dois helicópteros americanos são abatidos. Historicamente, o que se seguiu foi uma das mais encarniçadas batalhas do exército americano. Na tentativa de resgaste dos tripulantes, as forças americanas foram cercadas pelos milicianos em uma cidade que era 100% pró Aidid e 100% anti-americana. Uma operação que deveria ter durado 30 minutos se transformou em uma sangrenta luta pela vida que se estendeu por 15 horas. O resultado virou um livro, do jornalista Mark Bowden, e um filme de sucesso de Ridley Scott. Neste ponto, o jogo sobe uma curva de dificuldade assustadoramente alta, ao ponto de eu achar que não iria conseguir concluir todas as missões.

As forças americanas acabaram deixando o país em 1995 e o mesmo Mohamed Ali Farrah Aidid se tornou o presidente da Somália. Mas seu governo duraria pouco mais de um ano. Durante uma luta com seus opositores, Aidid foi ferido à bala e sofreria um infarto fulminante na mesa de operações, uma semana depois.

"- Entrar na Somália e deixar corpo no chão!"

É tudo muito bonito na Wikipédia, mas Delta Force Black Hawk Down é O jogo que seu censor favorito gostaria de criticar. Finalmente, encontrei um título onde você pode matar crianças, idosos e mulheres a sangue-frio, a população civil da Somália, que não quer você por perto, te xinga e joga pedras. Infelizmente, não é possível acumular pontos por isso, então também não é esse o jogo, senhor Werneck. Muito pelo contrário, se você matar civis demais, a missão é cancelada e você tem que começar tudo de novo. Mas eu não sei o que é mais assustador: o conceito de "civis demais" em um jogo ou o fato de que ele é baseado em fatos reais. Vamos ser claros aqui: Delta Force Black Hawk Down não incentiva a violência, mas é baseado em uma.

Em um dos momentos do jogo, caminhando por vielas muito familiares com a metranca na mão e fuzilando oponentes que lembram demais nossa realidade, seja pela cor da pele, pelas armas ou pelos arredores, eu me flagrei mentalmente cantando o tema de "Tropa de Elite". Eu era o próprio Matias, cumprindo minha missão. Eu me perguntava também onde estava o pessoal que acusara Resident Evil 5 de racismo. Matar zumbis negros não pode, mas matar homens negros na guerra é permitido. Permitido no mundo real, inclusive.

Delta Force Black Hawk Down 05

A tal Batalha de Mogadíscio que chocou a opinião pública americana  pela quantidade de baixas de soldados, teve um saldo final controverso. No lado dos Estados Unidos, 19 militares morreram de forma estúpida em uma cidade que não os queria ali. No lado dos somalis, a estimativa mais otimista afirma que 133 milicianos foram mortos durante a batalha. O governo americano alega que entre 1.000 e 1.500 milicianos foram abatidos. E essa batalha é vista como um equívoco militar! Eu que não quero saber quantos somalis morriam em um dia bom, então.

Delta Force Black Hawk Down mostra claramente a superioridade tática americana, com veículos blindados, amplo armamento, apoio aéreo e o personagem do jogador, que, sozinho, derruba uns dois mil somalis. No calor da luta e recebendo pedradas que reduzem sua vida, não é difícil ceder à tentação e largar o dedo em civis (dentro do limite "aceitável" pelo jogo, é claro). Nada de oferecer chocolate aos "nativos" ou receber flores da população "liberada". O jogo é truculência pura mesmo. Curiosamente, o jornalista Mark Bowden foi chamado para prestar consultoria ao desenvolvimento do FPS, mas se negou. A adaptação do livro de Bowden, por outro lado, contou com seu apoio e recebeu dois Oscars na Academia (melhor Mixagem de Som e Edição). Hipocrisia é pouco.

A Novalogic sempre teve amplas ligações com as forças armadas e se especializou em jogos militares, tanto que parte do faturamento de Delta Force Black Hawk Down vai para um fundo de auxílio aos órfãos dos soldados mortos em ação em missões especiais, The Special Operations Warrior Foundation. É mais consciência social que muita empresa que lucra com tiroteios imaginários. Por isso não dá pra entender a inclusão de kits médicos que restauram sua vida em uma série sempre caracterizada pelos pés no chão ou o uso de música eletrônica (!) com traços étnicos na hora dos confrontos. Os órfãos da Somália, americanos ou não, agradecem a falta de sutileza. Também é muito difícil engolir a ambigüidade do jogo e a propaganda deslavada que tenta vender a idéia de que a Operação Serpente Gótica não foi um desastre político. A desenvolvedora chega ao ponto de incluir uma missão final na história, onde o jogador deve se infiltrar em uma operação secreta em 1996 e executar Mohamed Ali Farrah Aidid, dando a falsa impressão de que ele foi morto em confrontos com outros somalis! Dor de cotovelo é pouco ao tentar reescrever os fatos e vingar a honra patriótica das forças armadas. O toque final é o fato de Aidid ter mais pontos de vida que qualquer outro inimigo no jogo, se transformando no típico chefe final!

Separar os acontecimentos reais do visto no jogo é tarefa impossível. Longe se vai o estande de tiros inócuo que me fascinou no passado e se abre agora a janela para a reflexão.

Delta Force Black Hawk Down 02

Pontos positivos de Delta Force Black Hawk Down: jogabilidade diversificada, equipamento realista e registro histórico de um evento real. Pontos negativos de Delta Force Black Hawk Down: trilha sonora sem propósito, ideologia militarista forte e inteligência artificial frágil. Nota final: 7.5.

Ouvindo: Ramones - Poison Heart
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9 comentários:

Bruno disse...

Hum... Só eu que estou achando os posts do Aquino um tanto estranhos? Tenho a impressão que a forma de escrever mudou. Parece até outra pessoa. Não sei descrever exatamente o que mudou, mas os textos parecem... Diferentes. Noto isto desde o post sobre Justine.

C. Aquino disse...

Bem observador. Era algo que eu mesmo tinha notado. Não sei explicar o motivo, talvez seja reflexo de problemas pessoais (já solucionados, felizmente) ou o hiato do feriadão ou o fato de eu estar afastado da leitura por mais de uma semana ou desânimo provocado pelo constante massacre dos jogos na mídia. Estou me sentindo mais... travado. De qualquer forma, posso assegurar que sou eu mesmo e que qualquer diferença é passageira ou uma evolução. E espero que tenha gostado das postagens mesmo assim!

Carlos disse...

Mes passado joguei Medal of Honor (2010) que trata dos conflitos atuais no Afeganistão. Senti um desconforto em jogar um personagem com um certo ar de arrogância de superioridade (perceptível pelas frases dos soldados e etc). No final do jogo (e dos creditos) surge uma frase do tipo: "Esse jogo é dedicado a todos os soltados.. bla bla".

Jogo é apenas entretenimento, não um meio de criar uma realidade paralela :P Depois disso, não jogo mais nenhum desses jogos de guerras "modernas".

Matar Javalis bípedes em um banheiro ou cinema é muito mais divertido....

breno disse...

O preconceito que eu vi quando joguei resident evil 5 não se tratava de matar zumbis negros, pelo contrario, ele estava mais embutido na protagonista sheva, que cumprimentou chris com a palavra "welcome to africa", e tambem em alguns relatos escritos que vc encontra pelo jogo.Esse no caso seria uma alusão a uma africa generica, como se tudo naquele continente fosse igual.Em alguma obra,vc pode até escutar alguem falar bem vindo a america,ou bem vindo ao Brasil,mas pelo menos nestes vc esta se referindo ao país e não ao continente como no caso da Africa, que tem dezenas de paises.Ass: Breno

Bruno disse...

Não quis dizer que os posts estavam ruins. Estão apenas estranhos, diferentes do que estava acostumado.

Também tive alguns problemas pessoais e profissionais esses dias. Fiquei tão estressado a ponto de uma gripe me deixar de cama, o que não acontece a tanto tempo que sequer lembro a última vez que aconteceu. Aproveitei p/ afundar em Portal 2 e Dragon Age: Origins (que comprei por imulso junto com o Portal 2 por uma indicação do Fabio do Re:Games. Como diz minha mãe, o que é um peido p/ quem já está todo cagado?). Não sou de beber e tendo a me isolar quando a vida bate mais forte, então costumo usar os universos fictícios de jogos e livros p/ clarear a mente. Talvez vc pudesse tentar o mesmo.

Se tentar e Portal 2 não for o suficiente, recomendo que comece a jogar o Mass Effect (que vc já possui, se não me falha a memória) ou adquira o Dragon Age. Jogos, livros ou filmes novoa, no sentido de vc não viu/leu/jogou antes, com histórias boas e envolventes, épicas, são melhores p/ este propósito ao meu ver.
Aliás, faz anos que não tenho paciência alguma p/ títulos de fantasia medieval. A ponto de fugir de títulos do tipo e sentir uma vontade quase incontrolável de estrangular os que, pela enésima vez, tentam me convencer a ler ou ver os filmes d'O Senhor dos Anéis.
O fato de conseguir jogá-lo, de não ter desistido na primeira hora, e de recomendá-lo deve dizer alguma coisa sobre o jogo. =)

C. Aquino disse...

Grato pelos conselhos, Bruno! Felizmente as nuvens negras estão se dissipando. E quanto a Portal 2, comecei ontem e... caramba, é MUITO engraçado! Pouquíssimas vezes um jogo conseguiu provocar risos em mim e este me deixou gargalhando, algo que eu não estava esperando. Foi muito desestressante... Mass Effect eu ainda vou segurar mais um pouco; estou esperando baixar o preço do segundo para emendar pelo menos os dois, antes do terceiro. Dragon Age eu estou adiando mais ainda. Tenho The Witcher e Oblivion na frente, em termos de fantasia medieval. Por favor, não me estrangule, mas Senhor dos Anéis é mesmo muito bom, talvez o cansaço venha do fato de suas ideias terem sido copiadas milhares de vezes desde que Tolkien o escreveu.

Anônimo disse...

Aquino acho que vc deveria repensar esse ponto negativo do Delta Force: "ideologia militarista forte", pois vc ta colocando seu vies na analise o que acaba ficando um pouco subjetivo. Eu mesmo gostaria de um jogo de guerra com tematica pacifista, como no caso de a harpa da birmania, mas não podemos negar que muitos gostam dessa ideologia militarista. O que caberia então seria analisar a argumentação(vc até tentou, mas não chegou a se aprofundar)ideologica. Eu até lembro que alguns criticos do cine players que criticaram filmes como marcelino pão e vinho, por acreditarem ser uma propaganda ao ditador espanhol franco e até mesmo o elogiadissimo dark knight, por acharem que carrega a ideologia de bush.Pra finalizar Como recomendação de jogo, procure bloodlines e Street of rage remake.

renan disse...

ei aquino ja jogou a expansão?? muito bom esse jogo porem não achei tão dificil.

Jogue battlefield,apesar de não haver missões mas é bem divertido.

baixe tambem o DF extreme 1 e 2. esses sim cumprem o que os outros não fizeram, tem um nivel de dificuldade maior.

C. Aquino disse...

Anônimo, minhas análises são subjetivas. Sempre foram e prefiro mantê-las assim. O que eu tentei foi misturar uma análise da jogabilidade com seu contexto histórico. Talvez eu não tenha conseguido equilibrar os elementos, mas sempre tem um sumário técnico no final com minha nota. Entre o primeiro Delta Force, Land Warrior e este, que foram os que eu joguei, eu prefiro Black Hawk Down mesmo, pelas inovações na série, apesar da patriotada. Não tenho a intenção de doutrinar ninguém, apenas levantar perguntas que cada um pode responder como quiser. Finalizando, há anos que eu quero comprar Vampire Bloodlines, mas o preço não cai nunca!
Renan, eu ainda não joguei a expansão do BHD e acho que vou pular. Pretendo jogar DF Extreme em um futuro indeterminado, que é a evolução da franquia. Deu pra ver que não sou um dos maiores fãs de FPS militares com ligações com o mundo real (a menos que envolvam nazistas; matar nazistas nunca me cansa).

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