Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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24 de fevereiro de 2011

Nós Ousamos?

Imaginei que não voltaria mais a este tema, tendo esgotado todos os meus argumentos com a postagem "Saindo do Recreio". Basicamente, o que estou tentando dizer é que os jogos eletrônicos, como mídia (ou, quiçá, forma de arte), precisam ser compreendidos além da limitada visão de "coisa de crianças". Chega de Mário como símbolo único, chega de bobagens faladas nos telejornais, chega de homens adultos se comportando como perpétuos adolescentes. Vamos divulgar as iniciativas sérias, vamos protestar contra as leis motivadas por preconceito, vamos prestigiar o material de qualidade. Vamos atravessar esta dolorosa fase em que os jogos ganham notoriedade e tem sua relevância questionada. Vamos amadurecer? Entretanto, tudo aponta que um dos maiores obstáculos para esta evolução está dentro da própria "comunidade".

O Planetóide X aponta o caso em que uma parcela dos jogadores se sentiu incomodada com a morte da menina no trailer de Dead Island e faz um excelente comparativo com uma obra-prima do cinema. Para variar, o texto do camarada Wasner Machado vale a conferida. A pergunta que fica no ar é: por que é possível ao cinema matar crianças, mas um trailer de um jogo é considerado sensacionalismo? E logo por jogadores habituados a massacrar mortos-vivos em inúmeros títulos que sequer se preocupam em mostrar o impacto emocional de tal apocalipse.

E o Re:Games levanta a polêmica do We Dare, jogo "sexy" para Wii anunciado hoje. Apesar de abusar dos palavrões em sua explanação, Fábio Sooner bate na mesma tecla aqui: os jogadores exigem reconhecimento para sua indústria, mas são os primeiros a pegar forcados e tochas quando algo mais maduro aparece no horizonte. Não faltam vozes iradas (muitas usando dos mesmos palavrões) para defender a possível censura de um Bulletstorm ou a proibição de um Bully, mas poucos ousam defender um jogo que fala de... sexo. Todo mundo tem o direito de ser puritano e estabelecer os limites para si mesmo. Mas tentar impor um falso moralismo em cima de uma mídia que precisa de espaço para se expandir e não está fazendo mal a ninguém... We Dare é um jogo de adultos, para adultos, sobre atividades consensuais que não envolvem colegiais, tentáculos, motosserras ou protagonistas anatomicamente inviáveis. E ainda assim, o título da Ubisoft já foi acusado de ser o "fim do mundo".

Evoco mais uma vez as palavras de Alexandre Taú, que escreveu um histórico libelo pela liberdade de expressão em 2009:

"No entanto, não controlem o que as outras pessoas querem ver! Eu quero… Não, desculpem, deixem-me fazer uma correção: eu EXIJO o direito de tomar minhas próprias decisões, e EXIJO que todos tenham esse direito. Eu não quero jogar Rapelay, mas defendo até a morte que outras pessoas queiram fazê-lo. Mesmo que o jogo seja ofensivo ou, pior, uma merda."

Maturidade não é matar prostitutas em GTA, não é decepar Necromorfos, não é mandar headshot no colega do lado no CS, não é explodir insurgentes no Afeganistão, não é ver a Bayonetta peladona ou a Lara Croft de shortinho. Maturidade é saber que temas maiores podem aparecer nos jogos eletrônicos, temas que talvez nós podemos não gostar ou mesmo ficar incomodados, enojados, ofendidos. Maturidade é estar preparado para este momento e seguir adiante, é debater sem crucificar, é procurar a verdade dos fatos e não apenas engolir o que já vem mastigado. Guerra, sexo, dor, morte, felicidade, Deus, política, tudo isso faz parte do mundo real e mais cedo ou mais tarde vai aparecer em qualquer forma de expressão madura o bastante para lidar com os temas.

Ouvindo: Bruce Dickinson - Hell On Wheels
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7 comentários:

Rock n' Roll disse...

tambem não entendo, no cinema voce vê violencia, sexo, drogas e outras coisas que fazem os conservadores ficarem de queixo caido.

que diferença faz um trailer de um jogo???

os jogos violentos sendo sendo vetados sem nenhum sentido, já que vamos supor seja uma criança de 13 anos que vá jogar um um jogo com censura para abaixo de 18 anos, quem vai comprar?? os pais, se não forem eles concerteza uma hora eles iram ver o tipo de jogo que seu filho joga.

Marcos A. S. Almeida disse...

Aquino, vejo isso tudo como um processo para um amadurecimento futuro.Vídeo games sempre foram vistos como diversão para crianças e adolescentes e isto ainda está arraigado na mente de muitos.Acredito que serão nescessárias algumas gerações para esse conceito se dissolver.É óbvio que puritanos e preconceituosos sempre existirão , como em tudo na vida.Até porque isso está presente inclusive em nossos lares, ou você acha que vizinhos, pra não dizer parentes próximos, já não ficaram "abismados" com um adulto de mais de 30 anos ficar " perdendo tanto tempo com joguinho?"Toda mudança passa por um processo de amadurecimento e nós Aquino, estamos tendo o privilégio de estar no meio disso tudo, debatendo, discutindo e ouvindo muita " abobrinha" também, mas faz parte.
Vou dar mais um exemplo para ilustrar: O ótimo seriado da FOX , "The Walking Dead" (recomendo) , no seu capítulo inicial têm uma cena em que o policial dá simplesmente um HEADSHOT na menininha infectada, com , se eu não me engano, um ursinho nos braços.Alguém quis queimar o autor em fogueira pública?Acho que não.Mas quando é um personagem TOTALMENTE virtual, de um " joguinho" , a coisa muda de figura.

Bruno disse...

Aquino, te faço uma pergunta:
Deus Ex tratou de muito assuntos pesados como religião, política, filosofia, antropologia e etc. No entanto, este não teve a mesma repercussão na mídia nem foi demonizado por abordar estes assuntos assuntos. Gostaria de saber sua opnião do pq isto não aconteceu. Seria pq a maioria dos jogadores sequer entendeu do que se tratava o jogo, seja por falta de maturidade e/ou conhecimento?

E é interessante notar que, mesmo que DX tenha lidado com vários assuntos que deixam muitas pessoas sensíveis e desconfortáveis, este não lidou com o sexo mesmo quando certas circunstâncias da storyline praticamente o obrigava a fazê-lo. Quando DC Denton visita Hong Kong, vários NPC's falam como garotas, que vc intui que são menores, são raptadas p/ servir de escravas (apenas escravas, nunca é dito escravas sexuais) no clube conhecido como Lucky Money, que pertence à uma facção da máfia chinesa na história. Quando vc visita o tal clube, uma mulher tenta te oferecer a "companhia" de uma destas escravas. Um dos textos da sua "companhia" quando vc fala com ela é "I cannot! I'm not allowed!", ou "Não posso! Isso não me é permitido!". E esta diz isso com umcerto choque na voz, como se vc tivesse pedido p/ fazer algo bem sujo.
Ou seja, por mais à frente de seu tempo que Deus Ex foi, ainda recusou-se a lidar com o sexo de forma direta, mesmo neste contexto onde obviamente deveria. Talvez este seja um dos motivos pelo qual o jogo não foi cruxificado na mídia.

C. Aquino disse...

Rock n' Roll, você está certo sobre o papel fundamental dos pais na educação dos filhos. E o sistema de classificação etária já existe justamente para isso, para informar os pais que não estão por dentro do mundo dos jogos, ou dos filmes ou do que for, sobre o que pode ser adequado ou não para seus filhos. E, no final das contas, a decisão final cabe aos pais, pois só eles sabem o grau de maturidade de suas crias.
Marcos, seu exemplo de Walking Dead foi muito bem lembrado. A série conseguiu colocar cenas de extrema violência e desespero no geralmente inócuo ambiente televisivo. Da mesma forma que o horror apresentado em Walking Dead tinha um propósito narrativo, assim também ocorre no trailer de Dead Island. E, sim, acredito que estamos vivendo um momento histórico, um ponto de virada na forma como os jogos eletrônicos estão sendo vistos pela sociedade.
Bruno, Deus Ex é uma obra singular que não provocou repercussão negativa na mídia por três motivos: pouca divulgação, falta de entendimento e sutileza. Apesar de ser um clássico dos jogos, seu alcance é inferior a de outros títulos mais famosos. A forma como os temas são abordados é bastante complexa e boa parte da imprensa ou dos detratores dos jogos talvez tenha menosprezado Deus Ex. E, finalmente, onde sobra bravata e escracho em jogos como Duke Nukem e Postal, sobra inteligência e sutileza em Deus Ex, ainda que este título seja infinitamente mais transgressor que os outros. Por que Harry Potter é atacado por todos os lados por grupos conservadores religiosos e a trilogia Fronteiras do Universo é quase desconhecida, ainda que o público-alvo e o tema sejam semelhantes? Por que o primeiro vendeu muito mais e é mais fácil de entender. Entretanto, em Fronteiras do Universo, Bill Pullman ataca diretamente a Religião e Deus enquanto Harry Potter é apenas a história das aventuras de um garoto contra um bruxo mau.

C. Aquino disse...

Aliás, Bruno, uma da minhas (poucas) broncas em Deus Ex foi ter sido obrigado a me aliar com estas duas organizações criminosas em Hong Kong. Minha vontade era passar fogo em todos... Lembro-me também de uma situação no distante Fallout 2 em que eu encontrei um NPC tão repulsivo, traficante de drogas seboso, que o eliminei na primeira oportunidade. Mais tarde fui saber que ele era um dos NPCs que poderia se juntar ao meu grupo! O jogo conseguiu lidar com minha escolha e a história seguiu em frente..

Carlos disse...

Tambem acho bobagem esse barulho todo sobre o jogo We Dare, mais pesquisando na internet, descobri que o jogo e PEGI 12??!! Como assim? para maiores de 12 anos??

C. Aquino disse...

Corrigindo: Fronteiras do Universo foi escrita por Philip Pullman. Bill Pullman é um ator...

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