Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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19 de janeiro de 2011

Saindo do Recreio

dead-space-2-wallpaper-01 A ESA (Entertainment Software Association) publicou recentemente os dados estatísticos sobre a indústria dos jogos eletrônicos em 2010. Você pode baixar o PDF completo ou dar uma olhada rápida nos dados mais relevantes. Segundo esta pesquisa oficial da organização que representa a indústria desde 1994, o jogador médio americano tem 34 anos e está jogando há doze anos. Ou seja, o jogador médio é legalmente um adulto agora e desde a época em que começou a jogar. Mais do que isso: 26% dos jogadores tem mais de 50 anos.

Então, alguém pode explicar a estúpida propaganda de Dead Space 2 lançada recentemente? Eu ia escrever uma longa e irada postagem sobre o assunto, mas o Fábio Sooner tomou a liderança e escreveu mais (e melhor) do que eu poderia. Confira um trecho do artigo dele e corra atrás do texto na íntegra:

"O que eu quero dizer  com isso é que Dead Space 2, como um jogo rated M, é recomendado em grande parte para quem não mora mais com os pais ou está se preparando para sair – e, se tiver um pingo de maturidade, tem mais o que fazer do que mostrar o jogo para a mãe, por qualquer motivo.

A campanha da EA não se alinha a essa lógica. De acordo com a propaganda, o fato de fazer uma mãe odiar o jogo o torna bom e adequado para o filho. Quem costuma usar esta lógica simplista? Crianças, claro. Quem mais? Adolescentes na fase crítica de rebeldia eu-não-pedi-pra-nascer-porra! E quem mais… Ah. Adultos que ainda moram com os pais e sentem algum prazer em ver sua mãe assustada/enojada? Que espécie de adulto é esse? Que estereótipo isso invoca?…

(...)Não é à toa que casos de auto-sabotagem como esse ainda acontecem na indústria de games. Na área de entretenimento, o videogame ainda é o irmão caçula, e boa parte do setor age exatamente como uma criança birrenta."

E conclui profeticamente:

"Há saída? Talvez daqui a alguns anos. É o tipo de coisa que só muda com o passar de gerações. Por enquanto, vamos ter que nos conformar com a idéia de que jogo bom é aquele que deixa as nossas mães com nojo – e com o estigma de que videogames “maduros” são, na verdade, festivais de violência e tripas sem sentido (mesmo quando há algum) feitos para crianças e adolescentes consumirem escondidos. Parabéns e obrigado, EA."

Recomendo a leitura do texto "Classificação – M de coMercial iMaturo".

Morte ao Mario

Eu adoro Mickey Mouse e Pato Donald. São dois personagens muito queridos da minha infância, que ainda me divertem nos dias de hoje. Mas eu não os escolheria como o símbolo máximo do cinema e sua magia. Certamente Humphrey Bogart em Casablanca ou Marlon Brando em O Poderoso Chefão se encaixam melhor neste papel. Da mesma forma, eu curti todos os livros de Harry Potter (um pouco menos o último, mas não vem ao caso). Mas jamais consideraria J.K. Rowling como o símbolo sagrado da literatura. Shakespeare ocupou este posto séculos atrás no imaginário coletivo e, no Brasil, Machado de Assis é insuperável. Eu ouço Ramones, Engenheiros do Hawaii e Iron Maiden no mesmo dia, sem fazer juízo de valor. Mas, quando penso em Música, com M maiúsculo, a imagem de uma orquestra sempre me vem à mente.

Quando se fala em jogos eletrônicos, o onipresente Mario está lá. Ele é simpático, vende como água no Saara, já protagonizou mais títulos do que me é possível contar e tornou a Nintendo milionária, não sem mérito. E se tornou o ícone de toda a indústria, para o bem e para o mal. O bigodudo encanador é uma unanimidade.

Mario Mas pergunte a qualquer um  de fora do meio o que ele representa e você terá uma visão castrada da indústria. Para muitos, todo os jogos eletrônicos começam e terminam em Mario: colorido, infantil e saudável para as crianças, uma Disneylândia digital. A hipótese de que esta mídia, como qualquer outra, possa conter temas mais complexos ou violência ou sensualidade é inadmissível. Seria o equivalente a descobrir que Hermione transa com Voldemort em Relíquias da Morte. O erro destas pessoas é a ignorância, manter-se atado a uma construção dos anos 80 que continua se propagando. Pergunte ao governador do estado da Califórnia, ele mesmo ator de sucesso do cinema-truculência, o que ele acha dos jogos eletrônicos.

É preciso entender que a mídia evoluiu, tornou-se capaz de contar histórias sofisticadas, de abordar questões relevantes do nosso cotidiano, como os conflitos no Oriente Médio ou vida e morte. E o público também amadureceu, nem que seja na carteira de identidade. O fato de um indivíduo gostar de Mario aos 34 anos de idade não depõe contra ele, de forma alguma. Mas ele também pode exigir mais de seus jogos, pois não? Ele deve ter o direito de explorar todas as possibilidades que uma mídia exibe.

E a indústria segue perpetuando esta visão equivocada de si mesma, como a EA e sua estratégia de marketing comprovam. Veja também qualquer comercial de Kinect, Wii ou Move e verá sempre uma família feliz tendo uma diversão salutar em conjunto, no melhor estilo Ned Flanders de ser. Quando muito, as agências de publicidade buscam atingir o jogador "hardcore", adolescente "revoltado" que curte "jogos irados", com muitos "headshots", "podreira", "bater em prostitutas" e outros que tais. O que também explicaria a estranha fixação em armaduras tunadas e nas curvas de Lara Croft...

Carta Aberta à Brasília

Atualmente existem DOIS projetos de lei em Brasília que visam censurar a distribuição de jogos eletrônicos no Brasil, como se a proibição de tantos títulos já não fosse problemática o suficiente. O que sempre acontece é que neste país, um pai de família de 34 anos, pagador de impostos, eleitor do presidente, freqüentador da Igreja e síndico do prédio onde vive não pode entrar em uma loja e comprar o jogo que quiser, por que jogos são "para as crianças" e elas "podem ser afetadas"!

E como a comunidade de jogadores brasileiros reagiu diante deste ultraje? Com Mario:

revoltagamer

Por favor, se eu sou um senador conservador, cercado de preconceitos e assessores ignorantes, a imagem engraçadinha de Mario travestido de líder guerrilheiro não é o tipo de propaganda que vai mudar minha opinião, pouco importando quantas assinaturas sejam reunidas. Xingar muito no Twitter também não produz frutos, temos aí o senador José Sarney que não nos deixa mentir (ou alguém acha que ele perdeu o sono por causa do #forasarney?). Divulgar o e-mail do responsável pelo Projeto de Lei e chamar seu movimento de Revolta Gamer me parece um convite a sandices ainda piores. De boas intenções, o Inferno está cheio...

Em contrapartida, Ivan Carlos de Almeida tomou a iniciativa correta e criou uma carta-aberta aos deputados e senadores que vale passar adiante. Além de muito bem articulado, o manifesto está fortemente embasado com links, estudos, pesquisas e até bibliografia na tentativa de combater a ignorância com dados claros e precisos. Não se trata de uma revolta gratuita de quem teme ver seu jogo banido, não possui mascote, convocação ou vídeo no YouTube. É um texto educado, firme e, repito, embasado, em defesa da liberdade de expressão e contra o preconceito sofrido por uma mídia que ainda é vista de forma infantilizada por todos.

Possivelmente, a carta-aberta do Consultor e Executivo de Tecnologia e Segurança da Informação (que nem Twitter possui!) jamais terá um décimo da visibilidade de Mario Guevara e seus rebeldes.

(avalanche de postagens: 3/14)

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6 comentários:

Marcus D. Ribeiro disse...

Tenho 32 anos, sou pai e casado, e apesar de concordar com a premissa dos jogos para adultos e ter estranhado o comercial da EA que realmente é dirigido ao público adolescente, pré-adolescente, vamos convir que ficou muito engraçado.

Marcus D. Ribeiro disse...

Como estou no trabalho, escrevi o primeiro comentário bem rápido e sem ter lido todo o seu post. Agora que o li por inteiro (Agora que também me encontro sozinho na sala)tenho que comentar. Quando vejo em blogs e sites sobre a tal "revolta gamer" com manifestações de xingamento via twiter, aí eu me decepciono por completo. Realmente é o tipo de atitude que só aumenta o estigma de "infantil" dos jogadores, dando claramente a idéia de que jogos eletrônicos são para crianças. Depois de ler seu post inteiro passar a não ver mais graça no comercial da EA.

Marcel C. Da Silva disse...

Foi apenas eu quem não ficou surpreso ao saber que foi coisa dos chimpanzés da EA?Já vi ela atrasar lançamentos de jogos(e quando lançados repletos de bugs), estragar franquias(Need for speed), e agora isso.É mais fácil finalizar Baldur's Gate 2 em uma semana do que eu convencer meus pais de que videogame é mais do que mata-mata e pula-pula, e depois dessa jogada de "marketing"(pra nao falar outra coisa) da EA então...

Marcos A. S. Almeida disse...

Caraca Aquino,é avalanche mesmo! Tô eu aqui comentando o terceiro post , no fim da página, sendo que lá em cima no início já está no nono post!Mas hoje ainda chegarei lá em cima,eheheehe!Vamos ficar mal- acostumados com tantos posts...
Bom, vamos ao comentário: Marcus, quando li o seu primeiro comentário pensei de imediato: enfim alguém com uma opinião positiva e com um entendimento simples sobre o vídeo de divulgação da EA. E não é que você escreve novamente dizendo que mudou de opinião? Acho que estamos "demonizando" em excesso esse vídeo , sendo que em minha visão , eles quiseram simplesmente fazer isso: humor.A figura da mamãezinha pura e singela , desaprovando horrorizada um jogo, é engraçado e significa que só alguém com nervos fortes é que suporta a sequência do game.Preconceito contra jogos violentos SEMPRE existirá e não é um vídeo da EA que contribuirá contra ou á favor.É marketing, é curioso, é engraçado.Precisa ser mais?
E Aquino, espero que não se ofenda, mas opinião vinda do Fábio Sooner , pra mim é no mínimo irracional. Pra alguém que escreveu em seu blog a pérola de que "Uma das resoluções para 2011 é conseguir irritar o máximo de gamers possível", entre outras, é de se esperar sempre opinões agressivas.Ele estava em meus favoritos, mas foi devidamente deletado por ter uma postura que o identifica com os famigerados "Trolls" da internet.Lamentável.

C. Aquino disse...

O Sooner é mesmo o Lobão da "blogosfera gamer", sempre com uma postura polêmica, um dom para enxergar o pior na indústria e nenhum medo de meter o dedo na ferida. Eu não concordo 100% com tudo o que ele diz no seu espaço, mas neste caso pensamos mais ou menos da mesma forma. Na outra extremidade, teríamos Dori Prata e seu saudável deslumbre com o lado bom da indústria. Precisamos dos dois opostos: são indivíduos raros que não repassam informação sem questionar, mas que refletem, adicionam e instigam. Eu não gosto do termo "formadores de opinião", por que pressupõe uma massa manipulável na outra ponta da comunicação, o que não é verdade. Prata e Sooner estão aí para abrir o debate e cabe a nós completar o raciocínio com nossas próprias vivências e idéias.
Quanto ao vídeo de Dead Space 2, continuo acreditando que foi um tiro no pé da EA. Este tipo de material pode ser facilmente usado como arma por críticos que não entendem e não querem entender a "piada". Em um período de desenvolvimento da mídia em que um governador/senador/deputado mal-informado ou mal-assessorado ou mal-intencionado pode decidir o futuro da indústria, é melhor não colocar lenha na fogueira.

C. Aquino disse...

De qualquer forma, obrigado pelo comentário, Marcos. Já reparei que sempre que eu estou perto de extrapolar meus limites na crítica, você me puxa de volta à realidade e me lembra que jogos também existem como entretenimento. Valeu!

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