Retina Desgastada
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15 de agosto de 2010

Lembrando a Cidadela

"Escrever num blog não difere em nada de escrever numa folha de papel."

José Saramago, em entrevista a O Globo

Box Com um simples vídeo de 2 minutos, iniciava-se um dos clássicos cyberpunks. System Shock narrava a história de um hacker sem nome e sem origens, tentando sobreviver em uma estação espacial dominada por uma inteligência artificial fora de controle e assassina. Em 1994, a Looking Glass iniciava uma franquia que atingiria seu ápice e seu fim no segundo jogo, geraria um derivado espiritual chamado Bioshock e formaria uma legião de fãs.

Um destes fãs é Shamus Young, articulista de jogos e blogueiro de mão cheia. Inconformado com a falta de um contexto melhor para o herói de System Shock, ele pegou aqueles dois minutos de vídeo e transformou em um conto. Hacker ganhou um nome, uma vida, personagens secundários e motivações. O resultado final ficou tão bom que seus leitores pediram mais. Young aceitou o desafio e reescreveu o enredo do jogo todo. O livro foi batizado de Free Radical, tem 246 páginas e pode ser conferido online.

Tudo isso eu já contei antes, no começo do ano. A grande diferença agora é que eu li Free Radical. E é bom. Muito bom.

Free Radical é ficção-científica de melhor qualidade, relevante até para quem não jogou System Shock. Como eu. Após encerrar a última frase e sabendo que Young fez alterações na trama, eu fiquei dividido entre a vontade de jogar e o medo de me decepcionar. Free Radical se sustenta sozinho e apresenta um estilo literário envolvente, apresentando personagens com os quais é possível se importar, ganchos enervantes ao final de cada capítulo, descrições precisas de combates, longas explanações sobre a natureza do principal vilão e até mesmo alguns truques gráficos no texto.

Talvez por ter fugido em alguns pontos da fidelidade excessiva ao material original, Shamus Young consegue superar o dispensável The Flood, adaptação cena a cena do jogo Halo. Enquanto este último gastava páginas desnecessárias narrando praticamente cada troca de tiros envolvendo Master Chief, Free Radical se concentra em dilemas existenciais, diálogos e evita perder tempo com batalhas em excesso. A caracterização da distopia futurista de System Shock ultrapassa com certeza aquilo que estava presente no jogo e percebem-se claramente os pontos onde a criatividade de Young enriqueceu o conceito original.

System Shock

Se em System Shock, o Hacker é apenas um veículo para o jogador pilotar enquanto explora o interior da Citadel, em Free Radical, Deckard Oswald Stevens (ou, como ele prefere, apenas Deck) é um personagem completo e a mola motriz da trama, suplantando até mesmo a marcante SHODAN, a icônica vilã da série. Conhecemos seu passado, sua origem, seus amigos, suas vontades e preconceitos. Queremos ele vivo ao final da história, não por que isso significa "vitória" ou por que ele nos representa. Queremos ele vivo por que ele merece! Se no jogo a Citadel é o cenário principal, no livro de Young outras paisagens se abrem tão ou mais complexas que a estrutura espacial. Sua Undercity pulsa vida e fascínio, na melhor tradição dos turbulentos subúrbios cyberpunks. E o clímax da jornada não se passa em órbita, mas em outro lugar e se completa de uma forma aterradora e épica.

Free Radical nunca vai encontrar seu lugar nas estantes das livrarias. É fanfic. Sua espinha dorsal está protegida por direitos autorais que não pertencem a Shamus Young. É uma pena. Young fez cumprir as sábias palavras de Saramago.

Remember Citadel

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