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9 de julho de 2010

O Dragão Tem Fome?

Dragon Age 2 Passo 24 horas sem me manter informado sobre o mundo dos jogos e quando me dou conta, todo mundo e seu vizinho estão falando sobre Dragon Age 2. Para mim, que ainda estou esperando baixar o preço do primeiro, parece que foi ano passado que lançaram o jogo original. E foi mesmo. Mas a Bioware não perde tempo em serviço, já anunciou a continuação, enviou uma arte para a capa da Game Informer, confirmou o título e o enredo, já está prometendo um trailer com mais de um mês de antecedência e, vejam vocês, já está aceitando pré-venda! Eu não me espantaria se ainda essa semana fosse divulgado o nome do primeiro DLC.

Não me sinto habilitado a comentar as qualidades deste CRPG, então passo a palavra para o camarada Wasner Machado (que, aliás, não está nada contente com os novos rumos da Bioware):

"A Bioware confirmou hoje que Dragon Age 2 está sendo desenvolvido a todo vapor. A sequência terá gráficos inteiramente atualizados, uma nova direção de arte, uma pegada bem cinematográfica, e ainda conheceremos regiões completamente diferentes de Ferelden. Essas são as boas notícias. Agora, as más.

(...) Não é de surpreender que o antigo sistema de combate tenha ido para o saco. Apesar de ser excelente através do uso de mouse e teclado na versão PC, ele simplesmente não funcionava a contento nos consoles. E esse é um mercado precioso demais para ser desprezado por qualquer desenvolvedora. Ainda mais uma desenvolvedora que agora se encontra sob a tutela da Electronic Arts. Dessa forma, lá vamos nós para mais um nivelamento por baixo, em direção ao menor denominador comum.

(...) Você não poderá importar seu antigo personagem no novo título. Você nem mesmo poderá criar um personagem só seu. Não senhor. Mais uma vez seguindo os passos de Mass Effect, você receberá um personagem pronto. Um humano, no caso. E no máximo poderá decidir se ele será mulher ou homem.

(...) Eu sou um dos primeiros a concordar que o aspecto comercial é importantíssimo. Sem lucros, nada de novos títulos das franquias que amamos. Mas, a partir do momento em que essas franquias se descaracterizam tão completamente que se transformam em produtos completamente diferentes, isso não é, na prática, o mesmo que desaparecer? E se é assim, que vantagem há para os fãs dos jogos originais?"

Mexer em franquias é sempre mexer em um vespeiro, visto as mudanças empregadas no Fallout 3. Mesmo não tendo jogado o primeiro Dragon Age, não posso deixar de me sentir incomodado pelo fato da Bioware não permitir a importação de seu personagem para a sequência. Um dos melhores aspectos de Baldur's Gate 2 e um excelente método para estabelecer uma sensação de continuidade, é descartado na linha de produção.

Mas a decisão mais absurda, na minha opinião, é não permitir a criação do próprio personagem. Entregar um personagem pronto para o jogador é demonstração de avareza, autoritarismo e desrespeito a uma das tradições do RPG.

RPG ou Não RPG

Shamus Young, em um coluna recente no The Escapist, defende a teoria que o uso de diálogos com vozes nos RPGs matou a liberdade de escolha. A culpa pode então ser colocada no alto custo de desenvolvimento de um jogo onde todos os eventuais caminhos tomados pelo jogador precisam ter uma resposta previamente gravada em áudio. Esta gravação demanda que alguém escreva os diálogos, alguém duble as falas, alguém dirija os dubladores, alguém trabalhe em cima dos arquivos de som gerados. Para um jogo de 40 horas de duração, com quase infinitas opções disponíveis, temos uma conta estratosférica. A solução encontrada comercialmente seria reduzir o leque aberto para o jogador. Antigamente, na era dos RPGs de texto, sem falas gravadas, precisava-se apenas de alguém para escrever os diálogos. Com o espaço reduzido de armazenamento e o baixo custo de produção, a imaginação fluia mais solta. Dessa forma, os jogos atuais tendem a ser mais lineares. E, no caso de Dragon Age 2, a Bioware parece ter decidido demitir o pessoal que fazia a dublagem do personagem principal com voz de Elfo, Anão, etc.

Gothic O conceito de ter diferentes ponto de início para o jogo, um para cada raça no primeiro Dragon Age, também sofreu o mesmo destino. E não se trata apenas de economizar em sessões de gravação. Ao impor um personagem para o jogador, a Bioware arrisca trocar a liberdade de escolha por um roteiro mais direto e fácil de controlar. Tentar manter uma coerência em uma história onde o herói pode ser um Xamã albino, uma Arqueira perneta, um Bárbaro semi-analfabeto ou um Príncipe das Trevas com um fraco por Justin Bieber é uma tarefa para poucos e geniais criadores. Um grupo ao qual, inclusive, a Bioware fazia parte até algum tempo atrás. Ao engessar o personagem a um modelo específico, o impacto que a personalidade do jogador pode provocar no universo ficcional se torna restrito àquilo que foi moldado. A fórmula do herói pronto pode até funcionar: os RPGs japoneses tem feito isso desde o início dos tempos. E Gothic não me deixa mentir. Mas, por favor, faça com que este herói pronto não tenha qualquer significado, que ele seja uma folha em branco para eu preencher de acordo com as circunstâncias e minhas aptidões. O Herói Sem Nome da série Gothic não apenas não tem nome, como praticamente não tem passado! Tirando a aparência inicial dele, todo o resto pode ser alterado. Em Dragon Age 2, Hawke, o seu personagem, tem nome (cafona) e uma história pregressa.

Pergunte a qualquer jogador tradicional de RPG, aqueles que jogam com papel e dados, se eles gostariam de interpretar um personagem pronto. Não gostam. Eu já tentei. Todos odiaram. Ofereça a eles um mundo fantástico repleto de seres fascinantes como Elfos, Anões, Drows, Minotauros ou Ciborgues. E depois informe que eles terão que jogar como humanos e veja o resultado. Não é bonito de se ver.

A Bioware tem um respeitável histórico e não chegou à posição de liderança que tem hoje sem seus motivos. Talvez Wasner, eu e outros tantos sejamos jurássicos veteranos de Baldur's Gate que não se adaptaram aos novos tempos. Ou talvez, "no andar da carruagem, a Bioware será a Square Enix daqui a uns dez anos".

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13 comentários:

José Guilherme Wasner Machado disse...

É exatamente esse o ponto, meu amigo. Concordo 100% com o que disse. RPG para mim é interpretar um personagem meu. E se não posso interpretar um personagem meu, mas apenas recebo um pronto, será que isso é um RPG? Ou é tão somente um adventure com mecânicas de RPG?

Não que um título não possa ser excelente sem esse recurso. The Witcher e o próprio Mass Effect estão aí para provar que é possível fazer excelentes jogos dessa forma. Mas para mim o prazer de montar meu próprio personagem e "viver" na pele dele é uma das coisas mais importantes, e lamento que cada vez menos jogos possibilitem isso.

O jeito é torcer para que as previsões mais sombrias não se concretizem em relação a DA2... estou usando Mass Effect 2 como base de comparação, e isso não me deixa muito espaço para otimismo. Pelo menos no que diz respeito às suas características RPG.

Abração!

Breno disse...

Uma pequena errata. Os personagens principais de Dragon Age não possuem dubladores. Ao que me parece a formula do "Sheppard" tem vendido mais do que uma tentativa de voltar as raízes, como foi DA:O

C. Aquino disse...

Valeu pela correção, Breno! Então não foi economia de dublador o que motivou a Bioware...

LocoRoco disse...

Na época do ps1 foi assim, com personagens e histórias prontas , e são jogos valorizados. Não entendi essa reclamação com o Dragon Age 2.

Alex Souza disse...

Gostei muito de Dragon Age, mas francamente, esse papo de "sucessor espiritual de BG2" nunca me convenceu. Agora, com a continuação dessa forma, tirou qualquer dúvida que eu tinha. Claro que ja existiram grandes RPGs com personagem predefinido, como Torment, The Witcher, Gothic (este, nem tanto, como ja comentou Aquino), mas o maior prazer de um RPG sempre é desenvolver um personagem da forma que vc quer, nao so em atributos de combate, mas na construção da propria historia dele. Mas vamos aguardar no que dá. Quem sabe não apareçam compensações? E so pra constar: BG2 ainda é a obra-prima da Bioware.

C. Aquino disse...

Oi, LocoRoco! Talvez eu tenha exagerado um pouco na frustração e deixado de lado um aspecto importante. Eu sei que existem jogos de RPG onde o personagem chega pronto para o jogador. Gothic é assim e eu adorei. Anachronox e outro exemplo de minha lista de favoritos. RPGs japoneses são assim e muitos tem (ou tinham) histórias fantásticas. O problema é que jogos com opção de montar seu próprio personagem estão se tornando cada dia mais escassos. A verdadeira razão da bronca é ver uma produtora que praticava esta abordagem mudar de rumo na continuação de um de seus elogiados títulos. Dá ao mesmo tempo um aperto no coração e um temor pelo futuro. Principalmente quando havia a impressão de que a série Dragon Age seria o tão aguardado sucessor espiritual de Baldur's Gate 2. Resta ficar na torcida de que eles saibam o que estão fazendo...

Bruno disse...

Pois é, LocoRoco. Na época do PS1 e do SNES foi assim e até hoje temos RPGs aclamados dos mesmos. Até mesmo no idolatrado (inclusive por mim) Deus Ex não há espaço p/ criação de personagem próprio, com background próprio e etc.

Não posso falar nada sobre Dragon Age pq não o joguei e nem pretendo. Agora, dizer que Mass Effect 2 "deixou de ser RPG e virou shooter" é um tanto equivocado, p/ dizer o mínimo.

Mass Effect sempre foi um híbrido de TPS e RPG com ênfase na trama. Assim como Deus Ex sempre foi um híbrido de FPS e RPG, diga-se.
Na verdade, até a parte TPS do primeiro Mass Effect foi meio negligenciada em favor da parte RPG, que contava com uma distribuição de pontos de skill desnecessáriamente complicada p/ newbies, trocentos zilhões de tipos de armas, armaduras e upgrades p/ os mesmos. Se vc souber o que está fazendo, pode até mesmo negligenciar seus companheiros e lutar sozinho, sem precisar pensar na utilização de skills ou de procurar um ponto estratégico p/ eles ou p/ vc. E isso até nas dificuldades Hard e Insane.
E foi exatamente isso que foi mudado no ME 2. Vc precisa pensar estrategicamente o uso de skills, sua localização e de seus companheiros e etc.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Prezado Bruno, eu digo e mantenho: Mass Effect 2 é muito mais shooter do que RPG. MUITO mais. Vc não pode criar seu próprio personagem. A customização é MÍNIMA, incluindo aí o processo de levelling. Vc tem pouquíssimas opções de armas. E de armaduras e itens de proteção, nem se fala. Nem mesmo um inventário o jogador possui. Mesmo a estratégia em batalha não é tão primordial assim. Tirando as missões finais, pouca diferença faz quem vc leva. E sobre posicionamento, 90% dos combates são "nós do lado de cá, os inimigos do lado de lá". De resto, é mais tiroteio do que qualquer outra coisa, nem é necessário pensar muito na maioria dos combates.

Se tivéssemos uma escala onde 10 aponta para Shooter e 0 aponta para RPG, ME2 estaria marcando 9, aproximadamente. Mass Effect 2 está naquela região de shooters com toques de RPG, como Stalker, Borderlands e Bioshock. Vou considerá-lo RPG só porque tem uma história parruda e personagens interessantes?

Aquino, veja esse link aqui, acho que vai lhe interessar!

http://www.pcgamer.com/2010/07/09/first-look-arcania-gothic-4/

Abraços!

Bruno disse...

José, meu ponto é: como ME 2 pode ter deixado de ser RPG se este nunca foi RPG? A série ME sempre foi um híbrido entre dois gêneros e jamais poderá ser somente TPS ou somente RPG.
Sobre customização, não entendo pq isto é um problema agora se nunca foi no passado. Os exemplos de RPGs onde vc praticamente cria seu personagem do nada até hoje são raríssimos, dado o número total de RPGs no mercado.
As opções de armas e armaduras realmente diminuiu se comparado ao primeiro ME, mas foram adicionadas vários upgrades p/ compensar. Já o inventário ainda existe. Apenas não na forma tradicional. Ao segurar Shift vc pode ver todas as armas que vc e seus companheiros carregam, mudá-las, adicionar efeitos às balas e etc etc etc. Armaduras e roupas casuais podem ser mudadas no seu quarto na Normandy, já que realmente sria muito esquisito um soldado carregando, além do armamento, todo seu guarda-roupa pela galáxia.
Se vc fala isso das batalhas, é pq ficou com a dificuldade fácil ou até mesmo a normal. Nas dificuldades Hard e principalmente a Insane (acredite, este nome não é por acaso) vc realmente precisa pensar muito bem em que skills vc e seus companheiros usam, como mover-se e/ou seus companheiros p/ flanquear inimigos e todas as táticas de guerrilha que vc puder pensar.

Como já falei ali em cima, ME não RPG nem TPS, é um TPSRPG. O que é algo bem diferente. Agora, não entendo como vc pode diminuir o "fator RPG" de ME pelo simples fato do inventário não estar nos padrões tradicionais e desconsiderar a história e seus personagens p/ o aumento deste "fator RPG". A história e personagens são as peças centrais de todo e qualquer RPG.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Bruno, falamos mais ou menos a mesma coisa, apenas parecemos ter conceitos diferentes da linha divisória em que um pretenso RPG deixa de sê-lo. No seu caso, vc nunca considerou o primeiro título de Mass Effect como RPG. No meu caso, ele ainda continha elementos suficientes para ser considerado assim. Já o segundo, não. Apesar de você manifestar surpresa com minha opinião, estou longe de ser o único a tê-la. A maior parte dos reviews apontou a mudança drástica de jogabilidade do título nessa direção. Mas entendo que esse conceito é mesmo bastante abstrato e indefinido, então as controvérsias são inevitáveis.

Sobre o fator história e personagens ser decisivo para considerar um título como um RPG, bem, a característica mais básica de um RPG é a criação e incorporação de um personagem próprio, e não apenas o fato do jogo possuir boa história e personagens. Se assim fosse, praticamente qualquer jogo poderia ser considerado um RPG. Por exemplo, os adventures da Lucas Arts poderiam ser considerados RPG, já que possuem boa história e personagens legais. Outros tantos jogos de aventura atuais também poderiam ser considerados como tal. Tenho certeza de quem você não pensa assim.

Grande abraço!

Alex Souza disse...

Concordo com a opinião de José Guilherme. A tendência atual é do RPG ser dissolvido dentro de outros estilos, e isso é uma questão de demanda no mercado de jogos. Esse processo claramente ja atingiu a Bioware, mesmo antes de ser incorporada À EA. Apesar de ter um personagem pronto, a minha esperança ainda é The Witcher 2,da CD projekt, pois mesmo com videos de jogabilidade focarem mais no combate, a produtora ja deixou claro que o foco do jogo é a historia, e construção+interação do personagem com os cenários. E esse foi o problema de Dragon Age: excesso de combate adaptado à jogabilidade de consoles. Sim, pois o nível tático das batalhas de Dragon Age é bem inferior ao de Baldur's Gate.

Bruno disse...

José, o que estou dizendo é que TPSRPG é um gênero diferente, um híbrido. Embora tenha características de seus gêneros "pais", jamais será apenas TPS ou RPG. Tentar dividí-lo em "parte TPS" e "parte RPG" é destruir a identidade do jogo.
Uma analogia simples: se misturar-mos tintas de cor branca e preta, obteremos o cinza. Podemos claramente ver que cinza é mistura de preto e branco e tonalidade muda de acordo com a quantidade de cada cor "pai", mas cinza jamais será apenas branco ou apenas preto. No entanto, até pelo meu próprio exemplo, concordo com vc que este é um conceito por demais abstrato e sempre haverão diferentes formas de enxergá-lo.

Agora, pela sua lógica, grandes clássicos do RPG do SNES, PS1, PS2 e até alguns sucessos atuais, como Chrono Trigger/Cross, Star Ocean, Xenogears, Final Fantasy, Breath Of Fire, Shin Megami Tensei/Persona e a série "Tales Of", só p/ citar alguns, não podem ser considerados RPGs. A customização nestes jogos simplesmente não existe. Sua participação se resume a movimentar seus personagens, que já vieram prontos, com background completo, idéias e personalidades próprias, e lutar contra monstros e chefões. E, no entanto, estes jogos são cultuados como clássicos épicos dos RPGs até hoje por muitos.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Olá, Bruno! Antes de mais nada, desculpe a demora na resposta.

Com relação ao seu argumento "branco e preto e cinza", entendo perfeitamente seu ponto de vista. Como disse antes, estamos falando mais ou menos da mesma coisa, apenas temos conceitos um pouco diferentes - e conclusões idem.

Sobre os RPGs citados, saiba que há de fato uma grande controvérsia sobre se eles são de fato RPG ou não. Muita gente questiona isso, e eu tendo a concordar com eles um pouco. Outros tendem a flexibilizar o conceito de RPG na base do "você não cria seu próprio personagem, mas pelo menos pode ditar grandemente a evolução dele". Ou seja, o jogo exibe operações de levelling (níveis) de um razoável grau de complexidade, e a customização/evolução do seu personagem é elevada - ou seja, apesar de começar com um mesmo personagem como todo mundo mais, o seu será praticamente único ao final do jogo - daí o fator "RPG".

Como disse antes, essas fronteiras são muito abstratas e de difícil definição, e os debates sobre o que é de fato um RPG e o que não é (um gênero diverso, porém contendo elementos típicos de um RPG de verdade) serão eternos.

Tenha certeza de que jamais esgotaremos esse assunto!

Abraços!

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