Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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20 de fevereiro de 2010

Mistério ou Sensacionalismo?

Sou obrigado a reconhecer uma falha minha. Em um post de fevereiro de 2009, "Combatendo a Ignorância", eu contestei a veracidade de uma notícia, que estaria sendo utilizada como argumento para criticar os jogos eletrônicos:

"Hell é citado mais uma vez, acompanhado do estranho caso de Keith Flaig, 14 anos, que teria cometido crimes brutais e se suicidado após uma partida do jogo. Pesquisando na Internet, não consegui encontrar informação alguma sobre o ocorrido (?!). Todos os sites nacionais parecem repetir o mesmo texto e a única referência em inglês é claramente uma tradução publicada em um site religioso. O autor menciona que a notícia saiu na revista Veja, em 24 de Janeiro de 1996. Infelizmente, os arquivos online da revista começam a partir de 1997. Se alguém tiver esse exemplar ou tiver oportunidade de visitar uma biblioteca para confirmar essa história, por favor escreva nos comentários!"

Desde então, a revista Veja ampliou o seu acervo online e passou a oferecer todo o conteúdo de TODAS as suas revistas de forma virtual. São mais de 40 anos de arquivos e eu consegui encontrar a fatídica reportagem do caso de Keith Flag, de fato publicada em 24 de Janeiro de 1996:

"O jogo da morte
Matança após a maratona no videogame macabro

Cena um: Keith Flaig, de 14 anos, brinca no computador com o melhor amigo, Nicholas Walts. Eles riem. Cena dois: Keith levanta-se, apanha uma faca de caça guardada no armário e rasga a garganta de Nicholas. Ouvem-se gemidos. Cena três: Keith vai ao porão pegar uma pistola calibre 20 e atira na irmã de Nicholas, de 10 anos. O sangue escorre pelo quarto. Cena quatro: O garoto procura a mãe do amigo para desferir-lhe um tiro fatal no rosto. Corre então para o quarto onde o amigo agoniza e ouve-se
outro disparo. Cena cinco: Keith coloca a arma na boca e se suicida. Uma história vio­lenta e cruel como essa parece enredo de um daqueles videogames que encantam a garotada. Parece. A seqüência macabra não tem nada de fantasia. Aconteceu na semana passada em Portland, uma cidade pacata nos Estados Unidos. Depois de vasculhar a casa onde ocorreu o crime, a polícia americana só tem uma pista: o computador onde os ado­lescentes brincavam.

TORTURA -Antes de se lançar na aventura assassina, Keith jogava Hell, game de ação com cenários assustadores. Um exemplo é o campo de punição, onde há pessoas queimadas e empaladas em estacas de madeira. A sala do dentista é pior. Em vez de aparelhos ortodônticos, vêem·se serrotes, lima e uma cadeira de tortura. Na história futurista, o jogador assume o papel de um casal, que procura pistas para desvendar segredos de um ditador. É macabro. Foi depois de mergulhar nessa história perturbadora que o garoto Keith se tornou o autor de seu próprio videogame. E mais uma vez veio à tona a discussão sobre a violência dos jogos eletrônicos. Para o psicólogo Ja­cob Goldberg, a tragédia do adoles­cente tem tudo a ver com seu hobby. "Es­ses jogos são hipnóticos e podem levar os jovens a confundir realidade
com fantasia"."

Então, a matéria existe. Pesquisando mais a fundo na internet, pude constatar também que o fato aconteceu. A terrível tragédia de Keith Flag é real.

Questionável, entretanto, é o tom sensacionalista aplicado pela Veja à matéria (não foi esse o Jornalismo o que eu aprendi na faculdade). Questionável também é o grau de influência do jogo no crime, que sequer é mencionado em diversas coberturas do caso que a imprensa americana veiculou na época. Para muitas dúvidas, o mistério irá permanecer. Não consegui localizar nenhuma informação definitiva sobre o crime: eu não sei o que a investigação concluiu, eu não sei o que o juiz decidiu.

Mas, afinal, que "jogo da morte" é esse?

O Inferno São os Outros

Hell - Cover Ao contrário do que a matéria da Veja possa dar a entender, o jogo não se chama apenas "Hell" ("Inferno"), mas seu nome completo é "Hell: A Cyberpunk Thriller". E ele é exatamente isso: uma história de suspense e espionagem, ambientada em um futuro cyberpunk, sem muita ênfase no aspecto do horror e sem nenhuma conotação religiosa. No universo do jogo, a existência do Inferno é comprovada cientificamente. Como resultado, o lugar de danação eterna passa a ser explorado por um governo ditatorial distópico e corrupto, que permite a passagem de demônios para o nosso mundo e envia criminosos para uma temporada nas chamas, abolindo a necessidade de prisões. Aqueles que acreditam que este tipo de jogo faz parte de uma conspiração para promover a "mensagem do mal" se enganam mais uma vez: no jogo, o jogador controla um casal de protagonistas que combatem as forças do mal, após serem manipulados em uma intriga que os envia para o Inferno.

Hell: A Cyberpunk Thriller é um adventure das antigas, com controles clássicos de apontar e clicar, onde você avança a história resolvendo enigmas e conversando com pessoas. Como era moda na época, o jogo apresenta sequências filmadas com atores de verdade e dublagens de astros de Hollywood, como Dennis Hopper e Grace Jones. Posteriormente, o título ainda teve sua história adaptada em forma de livro e publicada pela Prima Publishing. Atualmente, tanto o jogo quanto o livro são raros de encontrar.

Em outras palavras, temos na berlinda um título desenvolvido por um estúdio de relativas proporções (o GameTek Inc.), distribuído por um dos gigantes da indústria (a ainda ativa Take Two), com grandes atores no elenco, convertido em livro... não se trata de um título "ilegal" desenvolvido no fundo de quintal ou produto de alguma exótica cultura oriental. Não seria exagerado supor que o jogo tenha vendido centenas de milhares de unidades, certo? E ele foi associado a UM crime, pelo simples motivo de ter sido a última coisa que Keith Flaig fez antes de seu surto assassino.

Hell - Tela

Hell - Tela 02É uma pena que, em 1996, ninguém tenha se preocupado em entrevistar os produtores sobre as possíveis implicações da "influência" do jogo nos atos de Keith Flaig, oferecendo uma chance de defesa. É uma pena que ninguém tenha acompanhado as investigações posteriores da polícia ou lido a ficha final do caso. Entrevistar os pais do rapaz também seria o mínimo de se esperar do bom jornalismo. Mas escrever uma matéria em tom dramático e ilustrar com a imagem de um capeta vermelho é mais rápido, mais fácil e vende mais.

Se serve como justiça, o caso de Keith Flag não parece ter afetado em nada a carreira do jogo, lançado dois anos antes do crime. Mas, o mais perturbador é que jamais saberemos o que realmente motivou o jovem a cometer tantas atrocidades, enquanto perdemos nosso tempo apontando o dedo para fantasmas na tela do computador.

Ouvindo: Preussak - Schwarz Wird Die Sonne

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2 comentários:

Marcos A. S. Almeida disse...

Amigo, essa é uma discussão antiga e pelo visto não terá fim.Até mesmo porque,até onde eu sei, não existe uma pesquisa séria sobre o tema.O que me leva á outra pergunta:porque não existe essa pesquisa?Será que os especialistas acham que o assunto é irrelevante? Que a discussão em torno do tema não têm sentido?Ou é má vontade mesmo?De qualquer forma a minha opinião é de que existem pessoas pré-dispostas a cometer uma loucura desde que nascem, só precisam de um gatilho para disparar.E esse gatilho pode ser um jogo violento , uma seita, uma música incitadora e outros gatilhos que nós nem imaginamos.Infelizmente não temos como saber quem possui esse gatilho e aí é que mora o perigo.Só não acho justo colocar os jogos eletrônicos para cristo, é muito fácil e prático.

Tereza Jardim disse...

Concordo com o Marcos. Hoje as pessoas adoram culpar jogos pela violência cometida por adolescentes. E as atrocidades cometidas nos milhares de anos da história da humanidade antes do surgimento do video-game? Vão colocar a culpa em quem?

Hitler não precisou de um joguinho de terror pra torturar milhares de judeus e outros não-arianos. Ditadores africanos, cruzadas medievais, todas essas coisas horrendas aconteciam e ninguém jogava RPG ou Nintendo.

O problema está na cabeça de cada um. E o gatilho nem precisa ser algo explicitamente violento...

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