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30 de dezembro de 2009

Histórias que Nossas Babás Não Contavam

The Last Wish Era uma vez um guerreiro implacável, de longos cabelos brancos, assassino eficaz, espadachim invencível. Temido por seus semelhantes, odiado por todos os outros, ele combatia as forças das escuridão da melhor forma possível e, para grande pesar seu, sempre deixava para trás uma pilha de cadáveres. Ele era o melhor que existia naquilo que fazia, mas em seu peito carregava um profundo desgosto pela constante necessidade de matar. Se você pensou em Elric de Melniboné, criado por Michael Moorcok, meus sinceros parabéns pelo bom-gosto, mas você está enganado. Se você pensou em Drizzt Do'Urden, criado por R. A. Salvatore, isso prova que você é um veterano de Dungeons and Dragons, mas também está errado. Estou falando de Geralt de Rivia, o witcher criado pelo polonês Andrzej Sapkowski em 1993.

Se Geralt compartilha determinadas características com outros personagens anteriores, ele se destaca do universo tradicional de fantasia por ter em suas aventuras uma imprevista dose de cinismo, niilismo, duro e áspero realismo e um olhar de zombaria sobre o costumeiramente doce mundo dos contos de fadas. Onde mais você encontraria questões como política, incesto, sexo antes do casamento, escolhas morais e outros elementos adultos?

A saga de Geralt começou na Polônia, no inicio dos anos 90, e já se expandiu em diversos livros, romances e coletâneas de contos. Em seu país de origem, a obra já foi adaptada para o cinema e para a televisão (ainda que com resultados pouco expressivos), além de graphic novels e um jogo. E foi justamente o jogo The Witcher que ajudou a popularizar o personagem fora do circuito do Leste Europeu. Em 2007, finalmente, o primeiro livro (uma coletânea de 7 histórias curtas) foi traduzido para o inglês: The Last Wish. Curiosamente, o livro existe também em português, traduzido em 2005 para "O Último Desejo" e publicado pela editora portuguesa Livros do Brasil (apesar do nome da editora, o livro não chegou oficialmente por aqui).

 The Witcher 23

A palavra witcher não existe no idioma inglês e, uma livre tradução para o português seria bruxeiro. Geralt é um caçador de monstros em um mundo de fantasia medieval assolado por horrores que não se limitam apenas às florestas escuras. Muitas vezes, ele irá descobrir que as maiores monstruosidades estão ocultas no coração do mais "nobre" dos homens e que muitas delas não podem ser derrotadas. Capturado enquanto criança por um grupo de feiticeiros, ele recebeu treinamento pesado e sofreu mutações brutais (semelhante a um certo super-soldado do futuro...). O resultado é um andarilho que vaga de vila em vila, de cidade em  cidade atrás de feras para serem destruídas em troca de dinheiro.

The Last Wish surpreende como um soco no estômago. Após tantos livros de fantasia, um leitor veterano pode achar que já descobriu para onde um determinado conto irá se encaminhar, apenas para ter sua expectativa revertida por um novo dado, uma nova reviravolta na trama. No mundo de Geralt nada é o que parece ser e decisões difíceis precisam ser tomadas a cada instante: onde o certo nem sempre é o melhor, onde a vitória nem sempre tem um sabor agradável e o final feliz é seguido por uma sombra de incertos futuros. Desta forma, Sapkowski, seu autor, se insere no panteão dos grandes escritores do gênero, não por seguir o caminho já trilhado por tantos outros, mas por apresentar incômodos paralelos com nosso mundo, por mostrar aquilo que se esconde por trás dos véus de seda das histórias infantis e por tentar mostrar como é árdua a tarefa de manter-se moralmente correto cercado por dilemas insolúveis. As aventuras de Geralt não são épicas: ele não luta para salvar o Universo, ele não é o "prometido", sua espada não é encantada (não mais do que a média, pelo menos), não existe um terrível Imperador do Mal para ser sobrepujado. Os problemas que ele resolve estão entremeados ao cotidiano dos vilarejos, são maldições de origem misteriosa, monstros incompreendidos ou tramas arquitetadas pela cobiça, inveja ou preconceito. No fundo, sua luta não traz redenção, apenas alívio. Sua cruzada não tem boas perspectivas. Mas ele segue em frente.

Se o jogo tiver metade do tom criado por Sapkowski, o título terá conquistado um fã incondicional. E graças ao preço reduzido no Steam, breve, muito em breve, estarei na pele de Geralt, na virtual tarefa de caçar monstros humanos e inumanos.

The Witcher The Witcher - Creature

Geralt 2

Ouvindo: phoenixdk - Ablaze (MAP10 - The Demon's Dead)
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2 comentários:

Gabriel disse...

Bendito Steam, comprei tbm e estou baixando. Nao sabia que a estória do jogo vinha dosses contos, nem conhecia esse personagem. Espero que supere minhas espectativas.

José Guilherme Wasner Machado disse...

Eu amo esse jogo, ele é sensacional! Mal posso esperar pela continuação!

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