Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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14 de fevereiro de 2009

Igualdade Virtual!

Obama Barack Obama é o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. Will Smith é um dos atores mais bem-pagos de Hollywood e garantia de bilheteria certa. Oprah Winter é uma das maiores audiências da televisão americana. O grande campeão da Fórmula 1 2008 também é negro. E pensar que, 60 anos atrás, no país "símbolo da democracia", Rosa Parks recebeu a ordem de ficar em pé para um branco sentar no ônibus. Certamente muita coisa mudou desde então, um otimismo racial sem precedentes tomou conta do coração de todos e, ao que tudo indica, o mundo ocidental caminha para fazer as pazes com seu passado. O negro, enfim, está no auge.

Não seria a hora, então, de termos um grande herói negro nos jogos eletrônicos? Ou será que ele já existe?

O site Mobygames lista 69 títulos protagonizados por negros. Em todas as plataformas. Em todos os tempos. Desafio qualquer um a citar dentre estes, cinco jogos de sucesso avassalador e apontar o nome de um ícone da raça. Difícil?

Não há um único protagonista negro em nenhum dos jogos da série Resident Evil. Não parece desproporcional que não exista nenhum membro afro-americano de forças especiais, da polícia, da S.T.A.R.S., do exército ou dos fuzileiros atuando na linha de frente do combate aos planos da corporação Umbrella? A Capcom não conhece ou finge não conhecer as estatísticas sociais da população norte-americana.

Da mesma forma, nenhum negro jamais pisou em Silent Hill ou foi o personagem principal de qualquer um dos trezentos Final Fantasy já lançados. Apesar da especulação, Master Chief é branco, muito branco, literalmente pálido pela pouca exposição da pele à luz. Outros astros também sofrem, em menor grau, da falta de melanina: Solid Snake, Gordon Freeman, Lara Croft, Mario, Link, Kyle Katarn, Kratos, Max Payne, 47, Duke Nukem, Altair, todos os marines de Doom ou Quake, Dante, Sam Fisher e a lista continua. Excetuando, talvez, o elfo Link, qualquer um dos citados poderia tranquilamente ser um representante da raça negra.

Porém, é preciso evitar o erro de perpetuar velhos estereótipos da raça. Alguns desenvolvedores acreditam que um personagem negro precisa ter: "atitude", vocabulário carregado de gíria do gueto, penteados estranhos e/ou roupas de astro do hip-hop. Atenção, repita comigo: negro não é nigga, negro não é bad motherfucker (exceto, é claro, Samuel L. Jackson), negro não é brou. Alguns podem até ser tudo isso, mas não representam a maioria. Se existe um personagem grosseirão, machista e abusado como Duke Nukem do lado dos brancos, há espaço para um 50 Cent ou um John R. Blade do outro lado. Mas apenas um de cada.

CJ é Nosso Rei!

CJ A única exceção conhecida para o nigga, por estar devidamente contextualizado no jogo, é Carl Johnson, o primeiro grande personagem negro da história dos jogos eletrônicos. Não por acaso, ele está anos-luz na frente dos protagonistas anteriores da série Grand Theft Auto em termos de desenvolvimento de enredo, personalidade e motivações. CJ, como também é chamado, é um herói bandido: criado no gueto, ele nunca conheceu outra realidade exceto o mundo das gangues, dos policiais corruptos e da violência. Seu jeito de falar, de vestir e de pensar reflete isso, respalda sua trajetória e não soa artificial.

A desenvolvedora Rockstar é famosa por sua ousadia, por jogar contra a parede a hipocrisia politicamente correta e inserir sátira social onde seus inimigos enxergam apenas uma suposta glorificação da violência. Em Grand Theft Auto: San Andreas, Hot Coffee à parte, não podia ser diferente. Em uma série repleta de absurdas caracterizações, onde todos os italianos são carcamanos, todos os tiras são sujos, todos os japoneses são yakuza, todos os latinos são hiperbólicos, CJ emerge como um personagem satisfatoriamente bem-construído e justificado. Pouco à vontade no papel de gangster em ascenção, tudo que ele deseja é proteger sua família, preservar seus amigos e manter seu bairro, talvez sua cidade, livre das drogas. Ao longo da sua saga, a Rockstar expôe o lado ridículo da cultura hip-hop, das teorias de conspiração, da indústria fonográfica, dos maconheiros e do universo das celebridades.

Para completar o cenário, San Andreas também apresenta vilões negros. A maioria dos oponentes da história principal tem exatamente as mesmas origens de Carl Johnson, mas optaram por abraçar a criminalidade com força total, com o único propósito de obter poder. O combate final com o grande boss do jogo, ocorre em um momento dentro do universo da cidade fictícia de San Andreas que remete aos eventos da verdadeira Los Angeles, em 1992, quando o povo foi às ruas em incontroláveis quebra-quebras para protestar contra o racismo.

CJ é a exceção que confirma a regra. Congratulações à Rockstar por apontar o dedo para as falhas do chamado "sonho americano" e por seguir a tendência em GTA IV, desta vez com o imigrante Niko Bellic.

"Eu Tenho um Sonho…"

Toda manifestação cultural é um espelho da sociedade onde ela se origina. Não seria diferente com os jogos eletrônicos. Então, de onde viria esta relutância dos desenvolvedores em abraçar o grande "caldeirão racial" que se tornou o mundo globalizado? A culpa estaria na ainda pouca idade desta nova mídia? Ou seria um sinal de idéias arraigadas que se supunham extintas?

Em busca de um equilíbrio racial, os RPGs já oferecem (ou costumam oferecer) um amplo leque para o jogador personalizar seu avatar, sendo o gênero mais acolhedor para todos aqueles que gostariam de se ver representados na tela. Neste caso, a diversidade se estende para criaturas inumanas, raças alienígenas ou mesmo robôs. RPGs são a grande utopia dos iguais, onde todas as opções são equilibradas e nenhum indivíduo é superior a outro. Exceto no Oriente, onde a maioria dos jogos é protagonizada por pré-adolescentes brancos e andróginos, de cabelos espetados, mas isso é outro assunto.

Não vamos também cair no militantismo radical! Pouco tempo atrás, Resident Evil 5 foi alvo de duras críticas vindas de algumas lideranças negras por apresentar uma história onde o protagonista (branco) elimina uma grande quantidade de inimigos (negros). Por favor, vamos usar o bom-senso. RE5 é ambientado na África, nada mais natural que os oponentes sejam africanos. Não me lembro de nenhuma associação de proteção do povo espanhol protestar contra o extermínio de patrícios em RE4. A Capcom não criou um "simulador de ódio racial", mas uma aventura geograficamente localizada no continente africano. Da mesma forma que Far Cry 2, mas sem os zumbis.

Da mesma forma que Samus Aran surpreendeu os jogadores quando tirou o capacete, que Turok pavimentou o caminho para o Tommy de Prey e os italo-americanos tem sua dupla de heróis encanadores, espero que chegue um dia em que posts como esse sejam apenas uma nota de rodapé da indústria dos jogos eletrônicos.

Que chegue a mudança.

Ouvindo: Seabound - Day of the Century
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Um comentário:

Filipe disse...

No Final Fantasy teve o Barret, do FF VII...

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