Retina Desgastada
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2 de janeiro de 2009

Cidade Maldita

Box Incômodo. Agressivo. Chocante. Aterrorizante. Profano. Indescritível. Perturbador. The Suffering: Ties That Bind.

Que fique bem claro, logo de início: este é um jogo para ADULTOS e somente aqueles com estômago forte. Não é brinquedo para crianças. Não é o seu Resident Evil básico. Não é um Silent Hill. Não é nem mesmo divertido. Ties that Bind não é uma experiência agradável, mas uma jornada assustadora pelo piores pecados que a mente humana e a sociedade por ela gerada podem produzir.

Sem Saída

"Aqueles aprisionados em desgraça sonham com uma saída.
Mas quando você pensa
que conseguiu, descobre
que você nunca saiu."
Ranse Truman

Com a árdua tarefa de criar uma seqüência à altura do primeiro The Suffering, a Surreal Software não poupou esforços em capturar novamente a atmosfera mórbida e o horror ao qual o personagem Torque (e, consequentemente, nós), é submetido. Se os desenvolvedores falham em repetir o impacto inicial do jogo anterior, uma vez que a surpresa já não existe mais, eles compensam com dose tripla de sustos e morbidez.

Ties That Bind começa com um rápido flashback do passado de Torque onde somos introduzidos ao grande vilão do jogo, Blackmore. De imediato, descobrimos que há muitas sombras ainda a serem reveladas no passado do(s) personagem(ns). No momento seguinte, a ação continua do ponto em que o primeiro jogo termina: Torque escapa da Ilha Carnate e vai para a cidade de Baltimore. Onde o pesadelo continua.

Se você está planejando emendar os dois jogos, saiba que seus save games do primeiro capítulo podem ser usados para determinar o compasso moral de Torque nesta continuação. De acordo com seus atos no jogo anterior, o personagem pode ser considerado Maligno, Neutro ou Benigno. Se você, como eu, instalar Ties That Bind sem o primeiro The Suffering instalado na máquina, então Torque irá começar Neutro e fará suas escolhas morais ao longo do caminho.

Retornam à série alguns dos melhores monstros do primeiro jogo. Assim como a orientação macabra, porém apaziguadora, da falecida esposa de Torque. Dr. Killjoy, o maníaco psiquiatra, também está de volta e continua sem dar descanso para o relutante herói (?) do jogo.

Dr. Killjoy Retorna!

Se, no jogo anterior, as criaturas eram reflexos distorcidos de sentenças capitais aplicadas em Carnate, em Ties That Bind, as bizarras crias do inferno reproduzem fatos e crimes aterradores do passado e presente de Baltimore: soterramentos, vício em drogas, linchamentos, estupro, caça de escravos, condições prisionais desumanas, canibalismo. Tudo que foi cometido de errado e hediondo na cidade volta com sede de irrefreável de vingança. Os monstros, aqui chamados de Malefactors e sob o comando de Blackmore, se espalham pelas ruas, becos e casas. Em pouco tempo, Baltimore é tomada pela carnificina, por catástrofes e pelo medo.

Malefactor E, mais do que os Malefactors e a cidade imersa em caos, Torque precisa lidar com seus próprios fantasmas. Existe algo de ruim dentro dele mesmo, que precisa ser purgado, precisa ser encostado na parede e responder algumas perguntas. Afinal, quem matou a família de Torque? Foi ele mesmo? Foi Blackmore? Foi algo... pior?

Em meio à destruição que o cerca, Torque sabe que não existe saída. Não se trata de fugir de um presídio assolado, como ele fez no primeiro jogo. Não se trata de pegar um bote e fugir de uma ilha. Torque entende que aonde ele for, o tormento irá persegui-lo.

Sem Perdão

"Após um bastante tempo e sangue derramado suficiente,
certos lugares ganham um poder próprio.
Com o tempo, não haverá mais nenhum
lugar verdadeiramente em paz."
Ranse Truman

CopperfieldNunca desejei tanto que um jogo chegasse ao fim. Ties That Bind é catártico. Horror após horror após horror é arremessado contra o jogador que não tem outra reação a não ser instintivamente apertar os gatilhos virtuais e abrir passagem com extrema violência. E como há violência nesse jogo: sangue, vísceras, selvageria, fogo, balas e lâminas. Entretanto, cada ato de agressividade apenas aproxima Torque do mesmo nível de seus oponentes. Cada nível transposto na verdade não é transposto, ele gruda na pele do jogador e forma uma camada de sujeira que apenas os créditos finais podem limpar satisfatoriamente.

Este é o maior mérito e o maior erro de Ties That Bind. Não é um objeto de entretenimento, mas um artefato de tortura, uma ignóbil experiência multimídia digna dos delírios infernais de Dante (o escritor italiano, não o demônio emo).

A princípio, os desenvolvedores da Surreal parecem querer fazer jus ao seu nome e mergulham o jogador em uma surrealidade forçada: não há sala, cômodo ou passagem escuro em que não haja uma alucinação, uma visão sobrenatural, uma voz brotando do nada, um susto artificial, uma súbita subida da música. Em dez minutos de jogo, você está tenso a ponto de gritar. Ou desinstalar. A tática tem sua freqüência reduzida ao longo do jogo... justamente para te pegar desprevenido e apresentar uma nova face dos horrores de Baltimore.

Mas nada na Terra irá apagar da minha memória o desagradável nível do cortiço dos viciados. Trata-se da mais perfeita propaganda anti-drogas já criada pelo Homem. A única forma de tentar descrever o incômodo é compará-lo a uma versão interativa dos piores momentos do filme Trainspotting, misturados com as piores cenas de Hellraiser. Após aquele nível, eu pensei: "como eu faço para parar? como eu faço para acabar com tudo isso?!". A resposta é simples: continuar em frente, identificar o foco do Mal que habita esta cidade e descobrir se ele pode ser destruído.

Não Sem Defeitos, Não Sem Glória

Tecnicamente falando, o jogo apresenta falhas.

A mais irritante é herdada do primeiro jogo. Trata-se  da ausência de legendas nas falas dos personagens. Apesar de apresentar uma história mais rica que seu antecessor, fica difícil acompanhar as falas em inglês, com sotaques diversos, sem o auxílio de um texto escrito. Em algumas partes do jogo, eu tinha apenas uma noção do que estava acontecendo. Um guia do jogo foi fundamental para compreender melhor a riqueza do enredo.

Ao contrário do capítulo anterior, em Ties That Bind você só pode carregar duas armas dentre as várias opções disponíveis. Para alguns, isso pode soar como uma limitação. Para outros, se transforma em uma nova camada estratégica para um jogo difícil por si só.

Outro problema seria sua curta duração. Entretanto, dado o caráter incômodo dos temas abordados, talvez essa "falha" seja uma benção involuntária.

Pequenos defeitos que não prejudicam uma continuação destinada a ocupar um lugar ao lado de The Suffering em minha lista de favoritos. Pela primeira vez, em mais de um ano, um novo jogo entra para esta seleta lista, fechando 2008 com chave de ouro.

Ao expor através de metáforas diabólicas o que existe de mais desprezível na natureza humana, Ties That Bind coloca um dedo na ferida e o mantem ali. Se no jogo é possível romper com o ciclo de insanidade e flagelação simplesmente carregando um jogo salvo e seguindo a tecla W, na vida real, a solução é muito mais complexa e talvez sequer exista. Raro é aquele jogo que te faz pensar. Mais raro ainda é aquele te deprime.

Torque

Torque, em sua jornada conturbada, nos convida a dar uma olhada no abismo. E o abismo olha de volta.

Ouvindo: Accessory - inferno
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Um comentário:

darley lemos disse...

Fechei os dois The Suffering várias vezes,o jogo cativa o jogador não por sua ambientação macabra,não por sua extrema violência,mais sim pelo oque ele demostra ao jogador:Oque a mente humana é capaz de fazer ao seu semelhante.

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