Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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8 de outubro de 2008

Condenação Brutal

"San Quentin, you've been livin' hell to me
You've scalded me since nineteen sixty three
I've seen 'em come and go and I've seen them die
And long ago I stopped askin' why"

Johnny Cash

The Suffering - capa Não seria exagero algum de minha parte afirmar que The Suffering é provavelmente o jogo mais violento que já completei. Ao contrário de Blood, não há um único momento de humor negro, um alívio cômico ou comentário sarcástico do protagonista. Ao contrário de (qualquer) Silent Hill, não há espaço para questionamentos, dramas ou sentimentos. Não espere tampouco o ciclo interminável de batalhas repetitivas de Painkiller. The Suffering é brutal como um soco na boca do estômago, uma jornada frenética pelos porões do Inferno.

Em The Suffering, o jogador entra na pele de Torque, um homem condenado à morte pelo assassinato da mulher e dos dois filhos. Nos primeiros minutos de jogo, ele é conduzido até sua cela no corredor da morte. Como um trem desgovernado, a ação não tarda a começar. Nas próximas horas, Torque irá lutar por sua vida, sua sanidade e sua alma contra legiões de pesadelos.

O jogo não poupa o jogador de visões aterrorizantes. É o tipo de jogo que prova que a indústria superou o estigma de "produto infantil". É também o tipo de jogo que deve ser mantido longe dos menores de idade. Esqueça GTA, Postal ou Bully (!). The Suffering não veio ao mercado para gerar polêmicas (tanto que não teve alguma ou foi proibido). Cada cenário, monstro ou ato do jogo existe com um propósito narrativo e não para explorar os limites do sadismo interior deste ou daquele jogador.

Talvez Torque seja inocente das acusações. Talvez ele seja um psicopata tão ou mais repugnante quanto seus inimigos. Caberá ao jogador tomar as decisões morais que irão conduzir a história para um final apropriado.

Imagem e Semelhança

Stan WinstonNo caminho de Torque está o fruto da mente perturbada de um gênio do mundo real: Stan Winston.

Falecido em junho de 2008, este simpático senhor de barbas brancas foi o responsável por noites mal-dormidas de toda uma geração. Especialista em efeitos de maquiagem, efeitos especiais e design, Stan Winston foi o criador da aparência de seres como o Predador, o T-800 da série Exterminador do Futuro e Edward Mãos-de-Tesoura e por trazer à vida os dinossauros de Jurassic Park, os Aliens da série homônima e os demônios de Constantine. Onde havia um monstro nas telas de cinema, provavelmente havia o toque do mestre.

The Suffering E The Suffering (e sua continuação) foi o único jogo que recebeu a honra de usufruir do talento de Stan Winston. Sem limitações físicas para sua criatividade, o especialista em horrores criou alguns de seus melhores monstros. The Suffering é um dos poucos jogos em que mesmo o oponente mais trivial continua se mostrando perturbador mesmo depois da metade da aventura. Cada criatura no jogo personifica a crueldade de uma determinada forma de pena de morte: morte na guilhotina, morte por fuzilamento, morte por injeção letal, morte por afogamento, morte na cadeira elétrica... a lista de atrocidades que a espécie humana é capaz de perpetrar ao seu semelhante continua e está devidamente representada.

Os chefes de fase acompanham a proposta em seu design, mas apresentam ao jogador um nível mais profundo de repulsa. Eles não se limitam a surgir do nada e serem apenas mais um obstáculo para Torque. Ao contrário dos inimigos comuns, eles tem voz e vontade. Cada chefe se insinua. Aparições fugazes, sussurros, pistas de seu passado em vida, de sua condenação e sua execução . Eles jogam com as memórias de Torque e com seus valores. Tentam empurrá-lo nesta ou naquela direção do Abismo.

The Suffering - Torque Em meio a tantos monstros, Torque poderia ser um personagem comum na luta pela sobrevivência pura e simples, outro Gordon Freeman puro e impessoal enfrentando o que não pode compreender. Mas ele pertence àquele meio. Ele também é um monstro. Em uma brilhante sacada dos desenvolvedores, o protagonista é amaldiçoado (?) pela capacidade de se transformar em uma besta enfurecida de tanto em tanto tempo. Ou seria esta metamorfose apenas uma alucinação de Torque, como sugere um dos NPCs? Torque traz dentro de si a semelhança com as aberrações infernais da ilha Carnate ou sua alma está acima do toque corrupto que se alastra?

Solo Profano

Naturalmente, em The Suffering, o cenário não é apenas um cenário. Como um onipresente inimigo que o persegue, Torque não consegue se livrar da ilha Carnate.

Quando a penitenciária Abbot é transformada em um matadouro por um terremoto que traz uma invasão de forças profanas, o personagem precisa se enveredar pelos recantos mais obscuros do presídio para conseguir escapar. Nestes momentos, o jogo guarda semelhanças com o universo de Silent Hill, com o cenário apresentando sinais claros de corrupção e repulsa, enquanto as barreiras da realidade desmoronam e o caos se instaura. E, como peças de um quebra-cabeça, o jogador vai descobrindo o que se esconde no passado daquelas estruturas.

Mas sair de Abbot significa apenas pular da frigideira para o fogo.

Ilha Carnate

A ilha Carnate guarda um longo histórico de carnificina e injustiça. Em sua fuga, Torque irá conhecer também os segredos macabros de uma ilha onde cada locação foi marcada por uma tragédia. Carnate é uma ilha aparentemente destinada ao terror, cuja cota de insanidade finalmente atingiu o seu ápice e transbordou em cima dos pobres desafortunados que lá fixaram residência.

Torque irá conhecer o asilo abandonado do Dr. Killjoy, onde indizíveis experiências foram realizadas, a vila assombrada pelos fantasmas de crianças injustamente acusadas de bruxaria e mortas na fogueira, a praia onde os escravos afogados voltam do mar para defender os restos de um navio negreiro. Como um livro de recortes diabólico, a ilha se revela para Torque, enquanto as vítimas do solo profano retornam para saciar seu ódio.

Prolongação da Pena

Ties That BindCompletar The Suffering é uma catarse. Ainda assim, as lembranças da temporada virtual passada no jogo grudam na pele como sangue seco. É necessário um tempo para se recompor, porque a reincidência, aparentemente, é inevitável.

Um ano depois do lançamento do jogo, a continuação já estava pronta. The Suffering: Ties That Bind leva Torque para o continente, de volta a sua cidade natal, Baltimore. Mal o sobrevivente de Carnate coloca os pés em terra firme e o inferno se repete e se alastra por toda a cidade. Guiado novamente pelo benevolente fantasma de sua esposa e pelo sinistro espírito do Dr. Killjoy, Torque precisa se livrar dos monstros, escapar de uma organização paramilitar interessada em seus estranhos dons e desvendar, de uma vez por todas, quem chacinou sua família.

Ainda não tive coragem de jogar a seqüência. Nem tanto por medo de retornar a tão repulsivo universo, mas pelo receio que Ties That Bind não faça justiça à qualidade de seu antecessor. Por enquanto, o jogo continua guardado aqui, esperando o momento certo para ser libertado.

ATUALIZAÇÃO: The Suffering: Ties That Bind está no mesmo patamar que o primeiro jogo! A descida ao inferno continua...

Livre!

No final de setembro de 2008, The Suffering foi liberado para download gratuito. Esta versão do jogo contém propaganda e eu não sei até que ponto isto prejudica a atmosfera da narrativa (ou quem seria louco para anunciar em um produto tão assustador). Se a grana é curta, o download é obrigatório.

Esteja preparado, porém, para uma armadilha difícil de escapar. Ninguém sai incólume da ilha Carnate.

Ouvindo: Ozzy Osbourne - Slow Down
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Um comentário:

baiano frombahia disse...

Texto muito foda, parabéns pela criatividade

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