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18 de julho de 2008

Pontos de Vista

Talvez você não saiba, mas há uma guerra civil em andamento. Lados estão sendo escolhidos. Debates inflamados foram iniciados e as chamas ainda ardem em obscuros fóruns de Internet. Amizades estão se rompendo. Juras de vingança e profanidades ameaçam destruir a reputação de dois grandes jogos antes mesmo de eles serem lançados. E, cedo ou tarde, a batalha vai chegar aqui.

Durante muito tempo, a comunidade de fãs da série Fallout ganhou fama (às vezes injusta)  de ser uma legião de fanáticos. Suas críticas ferinas e sua revolta contra qualquer possível ameaça a seu jogo favorito fizeram história. Como uma horda de saqueadores de um deserto pós-apocalíptico, sua ferocidade tornou-se lendária. Seus gritos de ódio foram altos quando foi lançado Fallout:Tactics, uma versão estratégica do RPG original, mas alcançaram os céus com o lançamento para os consoles de Brotherhood of Steel, jogo de ação com muita testosterona e pouca massa cinzenta ambientado no mesmo universo da série. Quando a Bethesda assumiu o desenvolvimento do terceiro jogo, os orfãos de Van Buren começaram a afiar suas lâminas e acender suas tochas. Quando foi anunciado que Fallout 3 usaria a mesma engine de Elder Scrolls IV:Oblivion e não teria uma visão isométrica, a guerra foi declarada.

Iso-o-quê?

“A perspectiva do tipo isométrica ocorre quando o observador está situado no infinito (e portanto, as retas projetantes são paralelas umas às outras) e incidem perpendicularmente ao Plano de Quadro. O sistema de eixos da situação a ser projetada ocorrerá na perspectiva, quando vistos no plano, de forma equi-angular (em ângulos de 120º). Desta forma, é possível traçar uma perspectiva isométrica através de uma grelha de retas desenhadas a partir de ângulos de 30º.”

A Wikipedia não ajuda muito na definição. Vamos a alguns exemplos (onde imagens valem por mil palavras):

Fallout

Fallout 2

Van Buren

Diablo

Diablo 2

Então, isométrica é aquela visão de jogo onde seu avatar é pequeno e visto de longe de um ângulo meio inclinado. Compare agora com a visão em terceira pessoa:

Fallout 3

Fallout 3

Qual delas é a melhor? Ou, reformulando a pergunta, qual delas é a mais adequada para esta ou aquela narrativa?

Diablo Lança Fogo na Fogueira

Quando a Bethesda anunciou que Fallout 3 utilizaria uma perspectiva opcional entre primeira e terceira pessoa, foi alegado que a visão isométrica estava com seu prazo de validade vencido e que não seria possível lançar um jogo comercial nos dias de hoje com este tipo de ponto de vista. Então, com muita pompa e circunstância, a Blizzard revelou ao mundo que Diablo 3 estava a caminho. E seria isométrico.

Diablo 3

Diablo 3 não apenas provou ser viável, como conseguiu um resultado impressionante com aquela “velha” forma de ver o mundo. Naturalmente, a ira dos fãs de Fallout se voltou contra a Bethesda com mais gás. Se a Blizzard conseguiu, por que a Bethesda sequer tentou?

Foi a vez de Ashley Cheng, produtor de Fallout 3, contra-atacar: “Eu devo dizer que estou desapontado que a Blizzard tenha permanecido no lado conservador em termos de design com suas atualizações de Diablo e Starcraft”. Cheng, entretanto, admite que os jogos certamente serão divertidos e bem-acabados, dado o histórico da empresa.

A Única Constante é a Mudança

Ainda é impossível julgar qual visão sairá vitoriosa desta guerra. Ou se haverá vencedores. Ou se haverá perdedores. Fallout 3 chega às lojas em Outubro. Diablo 3... quem sabe? Mas esta não é a primeira vez em que esta batalha de pontos de vista é encenada. Outros oponentes já trilharam este caminho antes, com resultados variados.

Hellgate LondonEm Março de 2005, os desenvolvedores originais de Diablo lançaram Hellgate London. Recém-demitidos da Blizzard, eles criaram um estúdio próprio e passaram a trabalhar no que poderia ser considerado o sucessor espiritual da série que ajudaram a criar. Hellgate London, como Diablo, apresentaria um RPG de luta contra forças infernais, em cenários gerados randomicamente, com inúmeros ítens especiais espalhados ao longo do jogo. Mas esta nova aventura dos desenvolvedores teria uma ruptura drástica com suas origens: a visão seria em terceira pessoa (com opcional de primeira). Se os próprios criadores de Diablo optaram por uma nova abordagem, seria este o caminho certo? A recepção ao jogo, abaixo do esperado, e os subsequentes problemas financeiros que a nova empresa enfrenta talvez sejam a resposta.

Em 1998, três desenvolvedores originais de Fallout saíram da Interplay e fundaram a Troika Games. Em sete anos, eles lançaram três jogos. O primeiro, Arcanum: Of Steamworks and Magick Obscura, pode também ser considerado um herdeiro de Fallout. A perspectiva isométrica, o combate e o sistema de estatísticas é muito parecido com o jogo criado na Interplay. Arcanum foi um fracasso de vendas. Logo em seguida, veio The Temple of Elemental Evil, também com perspectiva isométrica, mas desta vez baseado em Dungeons and Dragons. Outro fracasso de vendas. Para o terceiro jogo, a Troika optou por licenciar a mesma engine (ainda não testada) de Half-Life 2, com visão em primeira pessoa. Vampire: The Masquerade – Bloodlines, foi o terceiro e último fracasso da empresa, que foi obrigada a fechar suas portas. Há quem credite a péssima recepção dos jogos à quantidade absurda de bugs contidos neles. Mas a boa aceitação dos títulos junto aos jogadores hardcore de RPG indica que o motivo talvez seja uma fidelidade exagerada a uma mecânica complicada e impopular, além dos bugs. O derradeiro projeto da Troika, que sequer ganhou um nome, seria um RPG pós-apocalíptico com visão isométrica. Os desenvolvedores bateram de porta em porta procurando quem bancasse a idéia. Não encontraram ninguém.

Star Wars Knights of the Old Republic Outro pilar dos RPGs isométricos sempre foi a engine Infinity, desenvolvida pela Bioware e utilizada na série Baldur’s Gate e derivados, em Planescape Torment e outros. A Bioware lançaria uma versão melhorada da mesma perspectiva em Neverwinter Nights. Mas este seria o último jogo com este ponto de vista da desenvolvedora. O que veio depois foi uma sequência de sucessos, todos com visão em terceira pessoa: Knights of Old Republic, Jade Empire, Mass Effect. Se a empresa, por uma obra do destino, tivesse a chance de produzir um terceiro Baldur’s Gate, não tenho dúvidas de que seria em terceira pessoa. E não tenho dúvidas de que seria fantástico.

Para citar mais dois exemplos, desta vez fora do campo dos RPGs, quem pode negar o imenso salto de qualidade e de público que a série GTA deu quando optou pela visão em terceira pessoa em detrimento da chamada top-down e quem ainda se lembra dos dois primeiros Duke Nukem, no estilo plataforma, que antecederam o fenômeno de vendas de Duke Nukem 3D?

Faça Mod, Não Faça Guerra

Um aspecto com o qual absolutamente ninguém parece estar se importando é o extenso suporte a mods que a Bethesda vem dado aos seus jogos. Morrowind foi lançado em 2002, com seu editor embutido no pacote, e a comunidade modder abraçou o jogo de tal forma que, mesmo seis anos depois, ainda são produzidas extensões! Ao contrário de Fallout, que apenas um punhado de heróis conseguiu dissecar e produzir algum conteúdo novo. Saem por semana no site Planet Elder Scrolls mais mods para Morrowind do que em toda a história de Fallout 1 e 2! A Bethesda repetiu o apoio aos fãs com Oblivion, então pode-se esperar o mesmo mimo em Fallout 3. Talvez não seja possível reverter a visão do jogo de volta às suas origens, mas qualquer outro aspecto que não agradar aos fãs poderá e será modificado pelos próprios.

Mod Morrowind Kids - Colocaram Crianças no Jogo!

Flame War. Flame War never changes.Sou louco pela série Fallout. Ela me ensinou que RPGs não precisam ser sobre elfos, orcs, dragões e feitiços. RPGs podem ser sobre qualquer coisa, inclusive sobre os cruéis resultados de uma guerra que ninguém irá sair ganhando. Seus cenários desolados, seus diálogos inteligentes, seu sistema de combate estratégico, tudo isto marcou época. Mas aprendi outras coisas com outros jogos: aprendi a gostar de explorar ambientes abertos, como em Gothic, Morrowind ou mesmo GTA. E admito que sou fã de um bom FPS. Saber que uma empresa com larga experiência irá pegar uma ótima franquia, combinar com a interatividade de uma sandbox e elementos de um shooter é um sonho prestes a se concretizar. Se a mistura for bem-sucedida, é claro.

Cada fã tem uma visão exata de como as coisas devem ser para que elas continuem perfeitas, seja um fã de jogo eletrônico, um fã de um filme, de uma banda ou de um livro. E todo fã tem o direito de preservar seu objeto de sonhos da forma que preferir em sua mente. Fallout 3 não seria o primeiro produto de entretenimento a seguir um caminho diferente daquele que os fãs esperavam. Metallica teve seu “Black Album”, Ripley morreu em Alien 3 (e depois ressuscitou), Dumbledore era gay etc. Algumas pessoas se decepcionam, outras voltam a se encantar, novas pessoas passam a gostar e o mundo gira. O importante é manter a mente aberta e a esperança acessa. Outubro vai chegar.

Ouvindo: U2 - Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me
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Um comentário:

slAnce disse...

eu gosto do estilo isometrico em rpgs :]

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