Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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7 de abril de 2008

Memórias de um Looser Multiplayer

Em 99,9% dos casos, eu prefiro jogar contra a máquina e a inteligência do programador que desenvolveu o jogo. Depois de anos de experiência, alguns minutos de jogatina e eu já consigo identificar as fraquezas do comportamento de meu inimigo e como tirar vantagem. Raras são as vezes que a dita "AI" me surpreende. Ao jogar contra outro ser humano, porém, tudo pode acontecer. Posso contar nos dedos as vezes em que saí de minha toca e me aventurei no imenso espaço dos jogos multiplayer.

Nos primórdios da Internet a vapor, havia um tipo de jogo chamado MUD. Era o avô dos MMORPG de hoje em dia: texto branco correndo em uma tela negra, interação por comandos, nem um único gráfico de 8 cores que fosse para enfeitar o pavão. Parecia DOS. Se você usasse o (tosco) programa de Telnet embutido no Windows, as limitações dobravam. Se você começou a usar computadores agora, não terá idéia do que se trata: uma conexão com a Internet que não usa o navegador ou o programa de email? Um jogo sem gráficos? Era como um imenso chat (alguém ainda usa chats hoje em dia?) de RPG com desafios e... OK, desisto de explicar. Se você ficou curioso, experimente www.mud.com.br. É o endereço do antigo ABBA MUD que eu frequentava (e que já mudou de nome e direção várias vezes).

Passei muitas madrugadas no ABBA MUD. O lag era imenso. No meio das batalhas, a conexão caía. Ou o servidor caía. Ou seu aliado caía. Mas era divertido. Conduzi meu personagem do nível 0 até a Imortalidade. Explorei cidades, matei dragões, encontrei tesouros, ajudei newbies e uma vez eu até roubei a chave do prefeito e tranquei a cidade principal.

Foi o último momento de glória em minha errática carreira de jogador virtual.

Pwned

QuakeJoguei Quake em uma linha discada de 33Kbps no servidor do UOL. Morri diversas vezes. A conexão caiu outras tantas. Matei um cara, um único cara. A sensação  foi bizarra: eu atirei um foguete nas costas de um sujeito que eu não conhecia e ele ficou ali, inerte no chão. Experimentei o assassinato virtual pela primeira vez. Por alguns segundos senti um misto de euforia, medo e pena. Depois levei um foguete nas costas de um outro sujeito que eu também não conhecia. E nunca mais acessei o servidor UOL para jogar Quake. Faltava naquela matança desenfreada o senso de realização que só um jogo individual permite ou o senso de pertencimento e cooperação que havia no MUD.

Deveria ter aprendido a lição, mas tive a infelicidade de estar com Quake 3 instalado na máquina quando consegui minha primeira conexão banda larga. Com o jogo zerado, pensei: "como será enfrentar seres humanos, ao invés destes bots?". Acreditei por alguns minutos que o fato de ter chegado ao fim da campanha single-player do jogo seria uma garantia de competência. Como fui tolo e arrogante. Conectado no servidor UOL (novamente), não conseguia manter meu avatar vivo por mais de 20 segundos seguidos. Meus adversários se moviam em velocidades próximas da luz e seus reflexos não eram humanos! Ou talvez eu não seja tão bom assim no Quake 3... Desisti, sem um único frag para repetir a façanha do Quake original.

Ao completar Delta Force - Land Warrior, cometi a estupidez de experimentar o modo online. Nada contra o sistema de salas da Novalogic. Mas, digamos, que meu tempo de sobrevivência no deathmatch não era muito superior do que os vinte segundos de Quake 3. Em um dos mapas, eu morria ainda descendo de pára-quedas, antes de tocar o solo. Desisti, mais uma vez sem causar uma única baixa nas legiões de jogadores hardcore que se reuniam online para xingar e matar. Ainda consegui alguma diversão nos mapas cooperativos, mas nada muito empolgante além da dádiva de permanecer vivo por um pouco mais de tempo.

Quando terminei Quake 4, eu... desinstalei antes que fosse tarde demais. Quantas vezes você acha que eu preciso quebrar a cara para aprender?!

Entre Amigos

O grande problema, naturalmente, é a imensa distância entre minhas preguiçosas habilidades de jogador-com-mais-de-30 e as prodigiosas habilidades de meus oponentes adolescentes-com-muito-tempo-para-treinar. Quando eu tinha a idade deles eu também era muito bom em River Raid e Enduro e uma vez dei uma surra em um tio meu que se achava invencível no Tennis no Atari. Mas os anos são cruéis, a coordenação motora atrofia, o cérebro vai relaxando. Experiência de vida não ganha frags.

Então, qual seria a solução para o jogador solitário? Certamente, a resposta não está no servidor de Quake do UOL ou semelhante. A alternativa seria jogar com outros fracassados!

Comprovando que a sina de um perdedor é algo difícil de se livrar, tenho poucos amigos. Dentre eles, poucos tem o hábito de jogar. E os que jogam não tem conexão banda larga ou não tem o mesmo gosto que eu ou estão sem tempo! É mais fácil programar um cinema do que uma partida online...

Já joguei Diablo via rede dial-up com um amigo. Mas a linha caía muito. Muito mesmo. Digamos, a cada cinco minutos. Não era divertido. Ainda mais quando o sujeito me usava como "guarda-volumes". Como funcionava o sistema? Ele estava construindo personagens poderosos para a Battle.NET da Blizzard e jogava-os em modo multiplayer sem conectar com ninguém, para subir de nível e obter ítens. Ocasionalmente, o personagem X conseguia um artefato que seria de grande ajuda para o personagem Y dele. Ele me telefonava e pedia uma conexão. O personagem X dele se encontrava com o meu personagem Zé das Couves e entregava o artefato. Ele desconectava. E conectava de novo, desta vez com o personagem Y, que receberia o artefato das mãos de Zé das Couves. Parece trapaça? Não chegava a tanto porque ele nunca conseguiu uma conexão decente com a Battle.NET, fosse com X, fosse com Y, com ou sem o dito artefato.

Divertido mesmo foi quando eu joguei Quake na rede local do escritório em que trabalhava com uma galera. Obviamente, não vou citar nomes. De qualquer forma, não tenho certeza se seria motivo para justa causa: jogamos após o expediente, com a aprovação do gerente (que não chegou a entrar na jogatina, mas ficou assistindo). Chovia lá fora torrencialmente e sabíamos que nenhum ônibus iria passar na rua. Então, alguém levantou a bola do Quake e o que seria uma partida rápida para esperar a chuva passar se transformou em uma hora e meia de carnificina. Tenho orgulho em dizer que fui o segundo lugar na quantidade de frags. Estava entre iguais...

Counter-What?

Estatisticamente, a média do jogador atual é de 33 anos. Mas são os mais jovens que dominam o universo dos jogos multiplayer. E a popularidade destes jogos cresce avassaladoramente. Os caçadores de tendências não dormem em serviço e já chegamos à era em que jogos são lançados focados apenas neste aspecto ou com uma tímida adição de um modo single player.

Do fundo da minha toca, eu apenas observo a vizinhança, enquanto me preparo para surrar mais uma vez a boa e velha "inteligência artificial"...

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Um comentário:

Hawk disse...

MP entre amigos são outros 500.

Joguei Quake entre amigos - que só conheço online - no começo do ano passado.

Começamos a jogar era umas 19 horas, só fomos parar de jogar 5 horas da manhã de uma segunda-feira que a maioria tinha que acordar as 7 horas da manhã para trabalhar.

Fazia tempo que não me divertia tanto, ríamos o tempo todo, não houve um único palavrão de forma agressiva. Estávamos jogando coop.

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