Durante muitos anos, Baldur's Gate 2 se manteve como o meu paradigma definitivo de um jogo de RPG eletrônico e fez por merecer seu lugar em minha lista de favoritos. Essa aura quase mítica em torno da continuação foi a grande sombra que me impediu de jogar o primeiro título por duas décadas. Eu já havia estado lá: meu protagonista Karkaz e sua trupe de aventureiros haviam derrotado deuses, haviam vencido dragões, beholders e seres celestiais. Aquela jornada tinha se encerrado com glória e um epílogo inesquecível. Eu não acreditava ser possível retornar ao início de tudo e abrir meu caminho enfrentando ratos, goblins e lobos, como um iniciante. Além disso, as maiores revelações da trama já estavam expostas.
Ainda assim, Baldur's Gate permaneceu espreitando em minha biblioteca.
Ainda assim, antigos companheiros de batalha seguiam me tentando a retornar.
E tudo que tem um fim precisa de um início.
Karkaz Retorna
Tomei o cuidado de escolher o mesmo retrato e o mesmo nome de personagem. Se a ideia era traçar a origem do meu herói do segundo jogo, eu estava disposto a ir até o fim. Ou quase. Originalmente, Karkaz era um Berzerker, possivelmente a pior classe para quem deseja manter seu protagonista vivo ou longe do perigo. Em minha cabeça, montei a história de que Karkaz começou sua jornada como um Mageslayer e, somente após os eventos do primeiro jogo, ele despertou um lado mais sombrio e se tornou um Berzerker. Mantive meu alinhamento Chaotic Good, um jovem herói que está disposto a fazer o bem, mesmo que isso signifique desafiar as autoridades e as regras impostas pela sociedade.
Passei pelo tutorial do jogo e uma mágica aconteceu: eu lembrava de tudo. Vinte anos depois, eu lembrava como jogar. Ao ponto de desejar que o longo tutorial se encerrasse logo, porque eu conhecia 90% das explicações e o resto eu poderia decifrar sozinho. A versão Enhanced do jogo (possivelmente a única ainda disponível no mercado) traz algumas melhorias de qualidade de vida, mas vários elementos idiossincráticos da experiência permanecem o mesmo, como a infinita frase "You must gather your party before venturing forth" provocada pela constante falta de sincronia do seu time em andarem juntos. Assim como a IA de combate que não inspira confiança alguma. Ou o quase inútil e desnecessariamente complexo sistema de detecção de armadilhas.
E, mesmo essas pequenas falhas de tempos antigos dos RPGS eletrônicos, não me irritavam mais. Eram defeitos charmosos que só aumentavam a minha nostalgia. Karkaz estava em casa novamente, eu havia retornado.
O choque de realidade veio do que eu mais temia: personagens de nível 1 são frágeis como papel. Qualquer bicho selvagem da floresta pode ser um desafio. Um ladrão de faca é mortal. Um mago de nível 3 já é um semideus capaz de aniquilar sua equipe inteira, sem que você tenha chances. Então, mecanicamente, Baldur's Gate estava dominado, mas eu precisava reaprender a me aventurar. Eu precisava voltar a ser cauteloso. Eu precisava me moldar para lembrar de salvar constantemente, porque os salvamentos automáticos são distantes e a morte está sempre presente.
Nesse início de jornada, nosso equipamento é básico e nosso orçamento é mínimo. Catar tudo que está solto no chão para vender se tornou um novo meio de vida. Eu não era exatamente um aventureiro, eu era um mendigo nômade em busca de sustento. Do tipo que cata moedas em barris e vende espadas por uma mísera unidade de dinheiro. Cada conflito trazia em si não o temor da derrota, mas o temor de precisar pagar o preço da ressurreição para um aliado tombado. Administrar um templo é o negócio mais lucrativo da Costa da Espada.
Unidos Venceremos
Eu havia esquecido como a franquia é próspera de aliados. O jogo não para de oferecer novas possibilidades de companheiros, de todas as classes, de todos os alinhamentos possíveis. Combinações exóticas, clichês ambulantes, personagens carismáticos, personagens antipáticos, a lista parece quase infinita. Durante as primeiras sessões, eu parecia estar coordenando uma equipe de revezamento, com pessoas chegando e saindo o tempo todo. Até que o time começou a se firmar, até que uma ideia se formou em minha mente: se eu iria traçar a origem do meu herói, eu teria que ser fiel aos eventos canônicos.
Jaheira vinha acompanhada de Khalid. Um não anda sem o outro. E eu não conseguia sequer imaginar minha equipe sem a presença decisiva de Jaheira e sem seu temperamento forte. Imoen é a primeira opção de aliada, a primeira amiga do protagonista e uma ladra extremamente eficiente, disparando flechas na retaguarda. Faltava Minsc, mas Minsc também trazia uma missão obrigatória: ele era o guarda-costas da feiticeira Dynaheir e ela precisava ser resgatada. Esse era o time oficial que iniciava a aventura em Baldur's Gate 2 e essa seria a minha meta.
Essa decisão acabaria me fazendo abandonar personagens marcantes no início da jornada, mas também me convenci cedo de que seria impossível aproveitar tudo que o jogo tem a oferecer. A Bioware produziu um título que é para todos os estilos de jogador, mas é uma decisão que acaba sendo muito cruel para quem é um rato coletor de personagens. Porém, eu precisava do meu time, eu precisava dos companheiros de Karkaz.
No caminho desse objetivo, havia um obstáculo: éramos fracos, extremamente fracos. A quantidade de vezes em que precisei retornar para uma cidade para ressuscitar alguém foi quase insuportável. Cada morte não apenas impactava nossos escassos recursos, como também forçava a redistribuição de equipamento por inventários quase cheios. Éramos um time de sucateiros tentando reunir material o suficiente para revender e pagar a ressurreição dos companheiros. Admito que pensei em desistir. As mecânicas de jogos de RPG se tornaram muito mais amigáveis desde 1998, Baldur's Gate é uma relíquia de tempos de mais atrito.
Entretanto, não desisti. Sem perceber, eu já estava obcecado pelo título, da mesma forma de antes. Eu estava lá vivendo aquelas dificuldades e celebrando vitória por vitória. Não importava se o inimigo era um dragão vermelho ou meia dúzia de kobolds. A sensação da vitória era a mesma. Aquele grupo de maltrapilhos bem intencionados estava avançando. E eu sabia que o destino deles seria maravilhoso lá na frente.
Resgatamos Dynaheir no limite do tempo em que Minsc se volta contra o próprio grupo. Removi Neera da equipe e completei a formação definitiva. Alguns personagens já chegaram no nível 3 e a diferença em relação ao primeiro nível é gritante. Uma grande jornada sempre começa devagar e nossos passos estão ficando mais largos.
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