A franquia cinematográfica do Sonic conseguiu um feito inédito nessa indústria: não apenas gerar um sucesso de bilheteria avassalador a partir de um personagem dos jogos eletrônicos, como também manter essa performance por três obras seguidas, uma sequência que até os próprios jogos falham em alcançar. Para o terceiro filme, o cinema trocou a simplicidade das duas primeiras aventuras por uma grandiloquência que o aproxima dos filmes de super-heróis e/ou dos animes japoneses. O clima de Sessão da Tarde, que combinava simpatia e situações engraçadas, é sobrepujado por uma forte carga dramática e batalhas épicas que flertam com o exagero, mas conseguem se segurar.
A bola da vez é Shadow, personagem imensamente popular nos jogos eletrônicos (ao ponto do meu filho ousar afirmar que Shadow supera o próprio Sonic, afirmação devidamente refutada por mim). Entretanto, é inegável o apelo que a versão mais edgy do protagonista parece exercer, quase ao nível de fanatismo. Os produtores do filme tem noção do tamanho do Shadow e sabiamente colocam Sonic em segundo plano nessa continuação. As melhores cenas pertencem ao Shadow, o núcleo emocional está centrado na origem do Shadow, a conclusão pertence ao Shadow. Paralelamente, o filme tenta passar a mensagem que os protagonistas são uma equipe e ninguém deve estar acima dos demais. Ou seja, é aqui que o Sonic calça os tênis da humildade em definitivo, ao ponto de ele estar desmaiado na conclusão do arco final. Quem brilha é o Shadow, é o Shadow, cara.
Se o filme anterior parecia buscar uma verossimilhança, Sonic 3 joga tudo para o alto e abraça de vez a irrealidade. Existem sequências inteiras em que não há um único humano envolvido e a adaptação soa tão live action quanto o último Rei Leão. A equipe de efeitos especiais está com cada vez mais demanda, filme após filme, e, visualmente, entrega. O roteiro não dá tempo para a ação respirar e somos jogados de uma sequência insana para outra ainda mais absurda.
Entretanto, a cada nova iteração da franquia, se torna progressivamente mais questionável a necessidade dos coadjuvantes humanos. Desta vez, o roteiro sequer tenta. James Marsden e Tika Sumpter não tem um arco forçado como aconteceu em Sonic 2, mas isso porque eles foram deixados praticamente com nada. Ainda assim, estão muito melhores do que Adam Pally, que faz parte da franquia desde o começo (como assistente do xerife), mas aqui recebe menos de um minuto de cena. Krysten Ritter, com sua tradicional cara de apatia, está no seu ambiente natural e parece questionar a todo momento suas escolhas de trabalho, logo ela que já foi protagonista de uma série da Marvel. Uma das raras exceções do elenco que foi respeitado é Lee Majdoub, que faz o assistente de Robotnik e cresce a cada obra, completando seu próprio arco dramático desta vez.
Jim Carrey é o monstro sagrado que retorna da aposentadoria para seu maior trabalho na franquia. Carrey não apenas faz dois papéis que interagem entre si, como é capaz de brilhar nas duas oportunidades. O ator se despede novamente da carreira e consegue sair de cena tanto com o momento mais vergonhoso da década (a sequência da dança com raios laser) como também com o momento mais inesperado do filme. Quem poderia imaginar que seria possível se emocionar e segurar uma lágrima para o Doutor Eggman?
O inevitável pós-créditos é quase uma nova cena inteira. Amparados pela certeza de terem criado uma trilogia fulminante, os produtores miram em um quarto relâmpago e eu encerro esse texto me perguntando em que ponto da franquia se esgotarão os coadjuvantes dignos do cinema e seremos obrigados a ver personagens absolutamente irrelevantes?
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