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23 de agosto de 2021

Jogando: Paint the Town Red

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(publicado originalmente no Gamerview)

Frequentemente, os jogos eletrônicos vem sendo acusados de incentivar a violência. Essa é uma discussão que atravessa décadas mas que, felizmente, deu uma sossegada. Bota "felizmente" nisso porque Paint the Town Red vem na voadora para desafiar seus instintos mais primitivos em um cenário seguro. Aqui, você começa a pancadaria e deve terminá-la como o único sobrevivente em um mar de sangue.

O título é fruto da mente doentia de apenas três pessoas da Southeast Games, sendo que uma delas só entrou nessa insanidade com a trilha sonora. Porém, todos os três são culpados por entregarem uma experiência hilariante de adrenalina, mobília quebrada, jorros de hemorragia e voxels borrados, o casamento perfeito, um trisal de Minecraft, Hotline Miami e battle royale.

Você Gosta de Machucar Pessoas?

A premissa de Paint the Town Red é muito simples: não há premissa. Em meia dúzia de cenários, habitados por dezenas de NPCs de cabeça quadrada, está instaurada a mais perfeita paz e harmonia. A menos que você comece a confusão, nada irá acontecer. Essa é uma bela forma dos desenvolvedores tirarem o deles da reta: "não incentivamos violência nenhuma, foi você que trouxe isso para o jogo".

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Não tem nem mesmo algum tipo de desculpinha ou missões, como acontecem na franquia Postal. Tudo está indo muito bem até que você agrida alguém. A partir desse momento, o cenário inteiro se transforma em uma pancadaria generalizada, um briga de bar extremamente agressiva, em que cubos vermelhos voam dos corpos e pintam paredes e o piso. Não há tempo para se sentir culpa, porém. Uma vez que a violência se instala, ela não acaba até que você seja o último vivo no mapa.

A partir daí, você precisa lutar para não ser morto. Rodinhas de espancamento são formadas, mas vários desgarrados podem cismar com você aleatoriamente e tentar te bater. Mexer com uma das rodinhas também é garantia de chamar a atenção de todos ali, que irão deixar suas desavenças de lado para arrancar seu couro. Para complicar ainda mais o risco de vida, existem mini-chefes escondidos no mapa, com mais resistência que o normal e bem equipados. Por último, cada cenário contém também um chefão, extremamente resistente e forte. Portanto, se vira aí, foi você que começou tudo isso! Se não sabe brincar, não desce para o play.

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O Mundo é Sua Arma em Paint the Town Red

Sabendo que Paint the Town Red parte de uma ideia bem básica, seus criadores gastaram anos em Acesso Antecipado para tornar essa experiência a mais complexa possível, sem abrir mão da diversão em momento algum. Não espere realismo, nem mesmo na Física. Ainda assim, o jogo apresenta diferentes opções para o jogador descer o cacete em seus adversários: desde um soco simples até uma bicuda que pode mandar corpos longe, passando por um recurso de bloqueio de golpes. Porém, nada que exija sequer um tutorial quanto mais o amplo leque de possibilidades de um Chivalry 2.

A boa surpresa de Paint the Town Red é a oferta de armas: praticamente qualquer item do cenário pode ser empunhado e transformado em um instrumento de dor e mutilação. Nós temos aqui as tradicionais garrafas quebradas com pontas afiadas ou armas mais convencionais como machadinhas e nunchakus, mas também é possível dar cadeiradas, bater nas pessoas com remos, bandejas de refeitório, halteres e até um pedaço carnudo de pernil. Nada está presente nos mapas apenas como um item decorativo, mas como um armamento em potencial.

Todos esses itens, sem exceção, podem ser lançados contra seus inimigos com resultados brutais. Nunca imaginei que eu precisava furar o olho de um NPC com um taco de sinuca arremessado em um jogo eletrônico, mas aqui estou eu aguardando os advogados da moral e dos bons costumes, mas plenamente satisfeito.

Satisfação é a palavra perfeita para descrever Paint the Town Red. Você começa procurando entender seu ritmo e morrendo de pancada nos primeiros minutos, até dominar a agilidade das teclas, a malandragem da evasão e a sensação gratificante de se arremessar tudo que não está preso em um chefe ameaçador, enquanto observa sua carne pixelizada cedendo e deixando o osso exposto. Ou o prazer quase celestial de liberar o poder especial de apontar para multidões e vê-las sendo desintegradas com um raio que cai do céu. Ou a gargalhada contida de se empurrar um desavisado para a morte certa na água com um chute bem aplicado.

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A música funciona muito bem em cada um dos mapas oficiais, dando o tom exato para esse frenesi de violência. Não é um personagem em si, como o pancadão nervoso de um Hotline Miami, mas é algo que martela lá no fundo, sem buscar roubar o protagonismo de sua própria devastação.

Escolha Seu Campo de Batalha

Por um lado, Paint the Town Red traz uma variedade bem pequena de cenários (sendo que um deles é idêntico a outro, apenas com ambientação noturna). Por outro lado, o jogo não deixa de oferecer um amplo leque de modos de se jogar.

Esqueça o multiplayer, a menos que você tenha um PC e amigos fixos. O modo cooperativo, em que você e seus parças moem de pancada os personagens de cada mapa, não está disponível nos consoles. Para piorar, no PC, ele está completamente abandonado. Em todas as minhas tentativas, encontrei uma única vez uma sala disponível, mas não consegui conectar. Na maioria absoluta das vezes, não havia mesmo ninguém querendo jogar em multiplayer.

Apesar de trazer poucos mapas oficiais, Paint the Town Red tem um bom suporte para mapas criados pela comunidade e um editor de níveis na versão para PC. Testei algumas criações de outros usuários e há boas ideais ali. A simplicidade gráfica do jogo possibilita algumas produções interessantes e baixar novos cenários certamente prolonga a adrenalina da experiência por vários dias.

Nativamente, o título também possui um modo Arena com ondas de inimigos, que irá separar quem sabe lutar com a força dos punhos e dos chutes daqueles que simplesmente apelam para lançar tudo que se vê pela frente.

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Modificadores opcionais adicionam elementos inéditos mesmo na jogabilidade básica e você pode terminar com um Paint the Town Red completamente diferente em mãos. Transformar todos os oponentes em zumbis é um modificador significativo que torna o jogo mais assustador. Enfraquecer seus inimigos com a opção de golpes devastadores deixa tudo estupidamente fácil e agressivo. Jogar com visão de cima é bem estranho e inédito. Outro modificador hilário é batizado de Superhot, em que os NPCs se movem somente quando você se move.

Nessa busca de tentar ser diferentes jogos para diferentes jogadores, Paint the Town Red chega a literalmente conter outro jogo disponível no seu menu. Batizada de Beneath, a aventura guarda poucas semelhanças com o jogo principal. Nem dá para chamar de derivado. Beneath é um RPG roguelike em que você enfrenta criaturas monstruosas nas cavernas abaixo de uma enigmática instalação militar, desbloqueia artefatos mágicos e, sim, sai no tapa com alguns oponentes. Entretanto, a pegada é tão alienígena a tudo que Paint the Town Red é que fiquei me perguntando por que ele não foi vendido separadamente.

No fundo, a proposta de Paint the Town Red é exercer sua violência contra personagens de voxels em cenários virtuais, desopilar o fígado em uma orgia de cubos avermelhados de brutalidade digital. Sem grandes pretensões, ele de fato cumpre o que promete. 11/10 explodiria a cabeça de um pirata com um remo novamente.

Ouvindo: Seiko Kobuchi - MA-121

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