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22 de dezembro de 2020

Jogando: El Hijo: A Wild West Tale

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(publicado originalmente no Gamerview)

Quando se fala no gênero stealth, a gente imagina um super-operativo das forças especiais se infiltrando em instalações secretas ou um assassino mortífero. Agente 47, Sam Fisher e Solid Snake estão aí para não nos deixar mentir. Ainda assim, desenvolvedoras independentes podem nos surpreender, emergindo das sombras com uma quebra de paradigma. Como um especialista em furtividade que, na verdade, é um garoto de seis anos com um boneco de dar corda e uma atiradeira.

Em El Hijo: A Wild West Tale, a desenvolvedora Honig Studios pega essa premissa que já seria fora da curva e leva essa história para o Oeste Selvagem. Em uma época e em um território em que valia a lei do mais forte, um moleque de cabelo espetado pode fazer todo mundo de trouxa usando inteligência e a total miopia dos adultos. O resultado é um título com erros e acertos, que prende pela simpatia e solta pelas mecânicas nem sempre adequadas.

Era Uma Vez no Oeste

Como o próprio nome diz, estamos falando aqui de um filho. E, para existir um filho, é necessário uma mãe. A história começa com a mãe ensinando ao garoto a arte de se esgueirar sem ser visto e como usar um periquito para sondar o ambiente ao redor. É o nosso simpático mas breve tutorial.

Infelizmente, bandidos incendeiam o rancho da família. A mãe parece determinada a buscar vingança e deixa o filho em um monastério pra lá de suspeito. O garoto, por sua vez, está disposto a fugir desse claustro e reencontrar a mãe. É o começo de nossa aventura.

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Assim, meio faroeste, meio fábula, controlamos El Hijo. O que o título não conta é que haverá alguns momentos em que assumiremos também o controle da mãe, porém a jogabilidade é idêntica. Em ambos os casos, o jogador não pode ser flagrado ou terá que voltar ao último checkpoint. Inicialmente, o garoto até pode tentar correr mais rápido que os rechonchudos frades do monastério, entretanto a dificuldade aumenta quanto mais se avança e os próximos inimigos nem se dão ao trabalho de correr: é tiro pro alto e você é obrigado a parar. O jogo da Honig Studios não traz violência explícita, mas temos aqui exploração de trabalho infantil e ameaças físicas.

Cada cenário é bem detalhado, fruto de uma arte charmosa que é muito bem aplicada na criação de mapas. Há muitas possibilidades de caminhos na maior parte do tempo, com opções para se esconder ou distrair seus oponentes. Jogadores criativos se sentirão bem à vontade, exceto naquelas partes em que o jogo permite somente uma abordagem.

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Com objetivos opcionais e desafios, El Hijo acaba se tornando um título que pode saciar pessoas com diferentes níveis de habilidade.

¡Ay Caramba!

Compreendidas as premissas de suas mecânicas, precisamos lidar com a inconsistência. De um lado, temos fases que podem ser atravessadas quase com um pé nas costas, depois que dominamos seus mecanismos. Por outro lado, algumas fases parecem ter sido construídas pelos arquitetos do Inferno e tudo que você deseja é apenas chegar ao final.

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Em um desses mapas, seu inimigo é uma força da natureza: uma implacável tempestade de areia que pode matar o garoto. Escapar dela se escondendo exige mais reflexo do que inteligência, o que pode causar frustração para quem estava só usando o raciocínio e a paciência até então.

Embora os checkpoints sejam generosos e bem sinalizados (o que ajuda a traçar o percurso ideal), você não tem a opção de salvar e sair. Ou você completa a fase inteira na mesma sessão ou terá que voltar no dia seguinte do começo do mapa. Essa decisão adiciona um gosto amargo ao rage quit, mas felizmente as fases nem são tão longas assim.

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Com uma visão isométrica, jogadores de teclado podem sofrer mais do que precisariam. É necessário apertar dois botões para andar na diagonal e, talvez, um uso melhor do mouse ajudaria nesse ponto. Percebi um ligeiro atraso em determinados momentos, sempre aqueles em que é imprescindível aquela fração de segundo para não ser apanhado.

Ao se esconder em lugares fechados, como vasos de cerâmica ou caixões(?), às vezes é possível reposicionar o personagem ali dentro e às vezes não, o que pode levar o moleque a sair pelo mesmo lugar que entrou, gerando situações complicadas.

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Por fim, nem sempre é claro quando seu personagem está ou não dentro do campo visual de alguém, mesmo com todos os recursos que o jogo te oferece. É comum que você seja ignorado a dois palmos de distância de alguém, se houver penumbra, mas seja avistado com tranquilidade à luz do dia, com a outra pessoa olhando em outra direção.

El Hijo de La Madre

O jogo acaba contando uma história sem palavras, que demora a engrenar. Passamos tempo demais no monastério antes de finalmente nos aventurarmos no empoeirado Velho Oeste e saímos de lá sem compreender seus mistérios. Os segredos de El Hijo demoram a ser revelados e não se pode dizer que o enredo seja o forte desse conto.

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O que cativa o jogador a continuar tentando se esgueirar nesse mundo bruto é a beleza da arte desenhada à mão, com um estilo visual bruto, mas eficaz em tons sépia. Associado a isso, temos a trilha sonora instigante, que remete aos clássicos do cinema e, por que não dizer, ao saudoso Outlaws, da LucasArts.

Aqui, briga-se com suas mecânicas que ora entregam o ouro com facilidade ora funcionam como um obstáculo estressante ao desenvolvimento da jornada desse mini-herói. Entretanto, a atmosfera é montada com perfeição e você quase sente vontade de mascar um fumo e cuspir em um pote de cobre, enquanto se esconde nas sombras.

Ouvindo: Duran Duran - All She Want Is

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