Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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15 de dezembro de 2020

Jogando: Call of The Sea

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(originalmente publicado no Gamerview)

Norah durante toda sua vida foi dividida por dois elementos poderosos. De um lado, uma doença crônica e hereditária, que provavelmente lhe irá cobrar um alto preço. De outro lado, um amor inigualável e recíproco por seu amigo, companheiro e marido, Harry. Esses dois polos irão se chocar na ilha maldita de Call of the Sea e respostas irão jorrar do oceano.

O título de estreia do estúdio espanhol Out of Blue é uma visita ao inimaginável: uma poética mas desafiadora tragédia romântica no universo de H.P. Lovecraft, um conto de horror repleto de momentos coloridos. O resultado de tantas discrepâncias não é uma obra desconjuntada, mas uma visão peculiar sobre os mitos de Cthulhu, um sopro de inovação e, ao mesmo tempo, uma ode aos grandes adventures do passado.

Fhalgof'n

Call of the Sea convida o jogador a explorar uma ilha misteriosa, na costa do Taiti, em 1934 e tentar decifrar o inexplicado desaparecimento de uma expedição arqueológica. O grupo, liderado por Harry,  procurava, nas ruínas locais e nas lendas que cercam a região, uma cura para a estranha condição que acomete Norah. Após um longo período sem notícias de seu marido, ela recebe pelo correio um pacote com uma foto antiga, uma chave com as iniciais C.W. e uma bizarra adaga.

A partir dessas pistas, embarcamos em uma jornada da qual não sairemos da mesma forma que entramos. Vestimos a pele de Norah e somos acompanhados pela sua bela narração até os últimos minutos de um jogo curto, mas marcante. Parte do charme que nos cativa emerge justamente da dublagem excepcional de Cissy Jones, veterana dos jogos eletrônicos (ele foi a voz de Delilah, em Firewatch, entre tantos outros trabalhos). O resto do elenco também faz um bom trabalho, mas a quase onipresença de Norah é sustentada pelo carisma do roteiro e pelo talento de Jones.

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Norah é então a coluna que sustenta essa narrativa. Atormentada por visões perturbadoras de outras realidades ou vidas, seu corpo doente se revigora ao ouvir o chamado do mar que batiza o jogo. Através dela, vivemos essa aventura, entendemos seus dilemas e somos conduzidos até uma escolha final que será o ápice de uma história que fala mais sobre aceitação do que sobre horrores, mais sensível do que macabro. No estouro do trovão de uma noite chuvosa, Call of the Sea é uma agridoce fábula que talvez colocasse um sorriso na face sisuda do próprio Lovecraft.

Uma Luz na Escuridão

Nem tudo no jogo é o que parece ser e isso inclui seu trailer e seu material publicitário. A opinião que eu tinha de Call of The Sea (compartilhada por um camarada jornalista), é que teríamos aqui um "walking simulator" em uma ilha tropical. Esperava elementos da cultura pulp fiction dos anos 30, alguma bravata, um Uncharted sem ação.

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O que a Out of Blue entrega é o oposto de tudo isso. A ambientação é pesada do meio para o final. A beleza da Unreal Engine com seus ambientes coloridos, que invariavelmente remetem a Fortnite, até está presente nos capítulos iniciais, mas cede lugar a um clima soturno, com passagens subterrâneas, uma noite tempestuosa e muito horror corporal.

Infelizmente, aqui aparece também um velho problema do motor gráfico, a escuridão excessiva nos cantos, um fenômeno que eu já havia percebido no quase visualmente impecável Draugen. Supostamente, é possível ajustar o brilho nas configurações gráficas, mas o jogo insiste em ignorar o que foi alterado no instante em que saímos da tela de menu. Para agravar a situação, as telas capturadas se mostraram ainda mais escuras do que aquilo que eu via no monitor e algumas acabaram nem entrando nessa análise.

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Passada a introdução da chegada de Norah na ilha, o título vai alternando momentos de deslumbre visual com passagens de angústia, flertando com a insanidade e o terror cósmico que você espera de Lovecraft. Ainda assim, Call of the Sea nunca cede à tentação de mergulhar de cabeça nos clichês repetidos à exaustão por todos aqueles que se deixaram influenciar pelos mitos de Cthulhu. Temos, desta forma, um jogo que puxa o jogador pelo braço por múltiplas emoções: apreensão, medo ancestral, encantamento, liberdade de tirar o fôlego, dúvidas, tensão, tristeza.

Em entrevista concedida ao Gamespot, a diretora do jogo, Tatiana Delgado, explicou que "Call of the Sea não é uma descida para a loucura, mas uma ascensão para a sanidade". Definitivamente, esse não é o Call of Cthulhu de tempos passados.

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Cthulhumyst

Da mesma forma, esperava puzzles simples, um Firewatch polinésio, no máximo. Novamente, um susto. A desenvolvedora toma uma decisão que irá testar a perseverança dos jogadores: os enigmas não são do nível básico. A memória mais próxima é o trabalho dos anos 90, na série Myst.

Traquitanas extremamente complexas exigem que o jogador decifre seu funcionamento e busque entender o que seus criadores desejam que seja feito. Isso, muitas vezes, não casa completamente com a situação e eu me peguei perguntando múltiplas vezes quem (ou o quê) teria concebido mecanismos tão antinaturais para realizar tarefas simples como regular uma queda de água ou mesmo estender uma ponte levadiça.

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Felizmente, talvez para desespero dos puristas, Norah é uma observadora sagaz. Ela tece comentários sobre praticamente tudo que vê ou toca e faz anotações sobre os elementos mais importantes do enredo, assim como sobre as pistas fundamentais de cada enigma. Ainda assim, mesmo com todas as informações na sua frente, é possível perder um tempo enorme buscando uma forma de aplicar esses dados no cenário. Afinal, o que é pra fazer?

A Out of Blue desenvolve uma fórmula para Call of The Sea. Primeiro, introduz Norah em um novo cenário. É o momento de ela investigar quase item por item em busca de informações sobre o paradeiro da expedição de seu marido. Não é segredo que o desenrolar desse trabalho quase de detetive é uma rede de tragédias, que vão aumentando com um crescente.

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Há algo de hostil na ilha que não deseja a presença de forasteiros. O lugar simplesmente não foi criado para o Homem. O estúdio espanhol realiza um excelente trabalho de narrativa ambiental, com fragmentos distribuídos de forma orgânica que pintam esse grande mural do destino de cada integrante da expedição.

Em um segundo momento, Norah irá esbarrar em algum obstáculo que a impede de ir para o próximo cenário, prosseguir com sua busca pela verdade. É nessa parte que o jogo perde um pouco de seu ritmo, seja com puzzles que exigem percorrer grandes distâncias, indo e voltando, seja com puzzles que exigem um bocado de massa cinzenta. Confesso que em três partes contei com a ajuda de um colega que estava mais avançado no jogo do que eu.

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Um empurrão na direção certa e as peças se encaixavam na minha cabeça. Sem qualquer tipo de regulador de dificuldade, os puzzles certamente serão uma barreira para muitos jogadores atraídos apenas por seu universo fascinante. Por outro lado, sem o dreno de tempo de seus puzzles, a experiência seria ainda mais curta do que as cerca de 8 horas consumidas por mim nessa jornada. Curiosamente, e o Steam registrou equivocadamente 21 horas gastas aqui no PC. Um bug ou as leis do tempo e do espaço não se aplicam mesmo nessa ilha?

Meu Querido Velho Amigo

Call of the Sea é possivelmente a surpresa do ano ou minha memória já não é mais a mesma em um ano que parece ter durado uma década. Cada uma das minhas expectativas foi revertida ao longo de sua travessia. Algumas foram ruins, como a dificuldade exacerbada dos enigmas, outras foram tão positivas que me deram forças para levar o raciocínio ao limite e tirar a poeira de velhas engrenagens e sinapses.

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Terminei o jogo com lágrimas, que não eram nem de pura tristeza, nem de puro júbilo, uma contradição final que coroa o título da Out of the Blue como um dos meus favoritos de 2020. Raras foram as vezes em que acompanhei os créditos de um jogo sem pular. Ali, naquele momento sagrado, a música mais uma vez exerce um papel de peso, com uma faixa da época que diz muito sobre o jogo e o relacionamento entre Norah e Harry.

Para minha última surpresa, há uma cena depois dos créditos. E, como tudo mais, em Call of the Sea, ela é mágica e dolorosa.

Ouvindo: The Gaslight Anthem - Here's Looking At You, Kid

Um comentário:

Anônimo disse...

Conheci o jogo aqui no "Retina Desgastada", mas como no momento o dinheiro é necessário para outras coisas, não pude comprar o jogo e tive que me contentar em assistir um gameplay.
Mesmo assim, gostei do jogo, mas acho que ele melhoraria se, a medida em que avançasse, contasse mais sobre a Norah. Por exemplo: quem ela era, afinal? Humana? Anfíbia? O que aconteceu com ela? Qual a ligação dela com a ilha? Se não me engano, em algum ponto do jogo é dito que a Norah começou a ter problemas de saúde depois que a mãe morreu; por que isso aconteceu? Por que ela se sentia bem na ilha? Enfim, qual é a história da Norah ?
Em alguns pontos fiquei esperando que o que foi mostrado tivesse alguma participação na história, mas isso não aconteceu. Por exemplo: no puzzle onde tem que formar uma imagem no tiki para abir a porta de uma sala onde a Norah encontra a pedra que permite acionar o elevador para levar até o poço que teve a tampa explodida, existe na sala uma foto com um nativo da ilha (ou talvez um polinésio, usando a roupa de penas que aparece na parede desta sala) e com outro homem, um ocidental, mais velho, com algumas partes da barba já brancas. Quem era esse homem?
Outro ponto: em dois cenários, aparece um garra negra (um deles é quando ela chega na sala em que há um jogo de xadrez e a caixinha de música está funcionando. A garra está em cima da lareira. Não me lembro qual é o outro ponto onde aparece a garra). Deveria existir uma função para esta garra dentro da história?
Mas de qualquer maneira, mesmo só assistindo gameplay, eu gostei do jogo.

Retina Desgastada

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