Retina Desgastada
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20 de junho de 2020

(não) Jogando: Boreal Tenebrae

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(publicado originalmente no Gamerview)

Nunca experimentei drogas na vida. Para ser completamente franco, nem mesmo fiquei bêbado uma única vez. Entretanto, tenha plena convicção de que Boreal Tenebrae é o mais próximo que se possa estar de um estado de alteração mental sem incentivos químicos circulando no organismo.

O título da Snot Bubbles Productions é um mergulho lisérgico de dar inveja a David Lynch, uma investigação em uma cidade interiorana onde tempo e espaço não fazem mais sentido, mas as relações humanas continuam tão complicadas quanto no nosso mundo. Infelizmente, a despeito de sua premissa alucinante, o jogo é assolado pela maior quantidade de bugs que já vi em todos esses anos nessa indústria vital.

Tales ou Tenebrae?

Se você está estranhando a caixa ao lado que diz que o nome do jogo é Boreal Tales, não se preocupe. Meu atalho no Steam continua dizendo Boreal Tales também e foi assim que o jogo foi lançado. Depois do lançamento, a desenvolvedora descobriu que havia um conflito de propriedade intelectual com um jogo educativo móvel e optaram por Boreal Tenebrae. As artes ainda não foram todas atualizadas, nem o atalho no Steam.

E nenhum dos nomes faz algum sentido, de qualquer forma. Não que algo nesse jogo faça algum sentido. Porém, chegarei lá.

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Boreal Algo revela então, desde o seu começo, que será um jogo estranho, atormentado por decisões equivocadas. Já na tela de abertura, é impossível configurar uma resolução 16:9, ainda que o menu ofereça de 1280×720 até 1920×1080, passando lentamente por todas as opções intermediárias. A cada mudança de opção, o foco muda automaticamente para o botão de voltar, como se o menu estivesse querendo que você vá embora. Talvez seja isso mesmo: mudar o jogo para 1920×1080, a resolução da minha área de trabalho, não altera em nada a proporção 4:3 do jogo.

Conformado com essa escolha, tive meu primeiro contato com o mundo mágico, mas incrivelmente urbano, de Boreal Tenebrae. Essa é uma Twin Peaks pós-apocalíptica, em que humanoides de todo tipo vivem suas vidas interioranas e convivem com anomalias espaço-temporais. As referências televisivas são constantes, com estática, sinais perdidos, telas de TV, fitas que você encontra  e funcionam como viagem rápidas (e que podem te levar para diferentes pontos do tempo e do espaço).

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Não vou negar: a primeira impressão desse mundo é inebriante. Os gráficos em pixels remontam à era do PlayStation 1, sem ser somente uma imitação. É uma escolha estética, uma simulação que soa ao mesmo tempo retrô e moderna. Seria impossível reproduzir o caleidoscópio visual que é Boreal Tenebrae com gráficos realistas. A difusão de cores e os borrões, ajudam a compor a confusão desse universo.

Bugs Tenebrosos

Entretanto, já no primeiro cenário também fui confrontado com um bug que me impedia de avançar na história. Era impossível combinar no inventário dois itens que estavam gritando para serem combinados. Eu estava louco? A solução seria outra? Em adventures, nem sempre as coisas são como parecem ou mesmo lógicas. Em um adventure em que a premissa é surreal, a incerteza é ainda maior. Ainda assim, tinha convicção de estar tentando fazer a coisa certa e que era um bug.

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Deixei o jogo de lado por uns dias. Houve patches que corrigiram problemas que eu nem cheguei a encontrar. Nenhuma referência ao meu impasse, nenhum conserto para o sistema de resolução de tela. Retornei a Boreal Tenebrae e estava certo: os dois itens combinavam, a história avançou. Alguns dias de distanciamento e a sensação de não entender nada só aumentou. Mesmo assim, prossegui, cada vez mais intrigado pela história.

A protagonista Bree está em busca de sua irmã Sarah, desaparecida tempos atrás, possivelmente em uma dimensão paralela. Ou algo assim. Exceto que Bree não é a protagonista. Ao longo do jogo, você assume o controle de diferentes personagens, com novas perspectivas e motivações, inclusive a própria Sarah, que está perdida em uma dimensão paralela. Ou algo assim. Curiosamente, é possível alternar entre os personagens e suas situações e todos compartilham o mesmo inventário. Assim, Bree pode usar itens descobertos por outras pessoas, em outros lugares, em outras épocas.

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Exploro o interior de uma das fábricas do jogo. Mesmo em território tão abstrato quanto a cidade de Boreal Tenebrae, a relação patrão e empregados aqui assume sua forma mais predatória. Os funcionários são meras engrenagens de um sistema e quem está no comando não liga para o destino de quem está lá embaixo.

A mensagem social seria mais útil se eu não tivesse travado na fábrica. Sem uma opção de saída, busquei um caminho a qualquer custo e acredito ter cruzado um limite que não era para ter cruzado. Como eu disse antes, em Boreal Tenebrae é muito difícil distinguir o que é uma falha e o que é proposital. Fiquei preso em um canto do lugar, impossibilitado de me mover. Salvei. Fechei o jogo.

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Tenebrosos Bugs

Ao retornar ao título da Snot Bubbles Productions, vi que meus saves haviam sumido, tanto o manual quanto o automático. A tela de Load Game carrega, mas não há nada listado. A esta altura do campeonato, o jogo já tinha mudado de nome também.

O vídeo que ilustra essa análise é meu recomeço. Já sabia exatamente onde ir e o que fazer. Não que Boreal Tenebrae seja um jogo mecanicamente difícil. Há adventures bem mais complicados no mercado. O real desafio aqui é montar o quebra-cabeças da narrativa. O real inimigo são seus bugs.

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A trilha sonora me instiga em ir adiante. Em dado momento, um rock rasgado irrompe a atmosfera para uma sequência catártica. É a luta de classes chegando na viagem de ácido. É uma mudança de tom que surpreende, mas casa muito bem com toda a proposta. Na maior parte do tempo, a musica composta por guidewire envelopa uma alucinação suave.

Avançando na história, os elementos pesados da narrativa sobressaltam. Boreal Tenebrae não tem medo de flertar com o horror e apresenta níveis elevados de gore que se somam ao clima já desconfortável da insanidade geral. Essa cidade está doente, no sentido psíquico e material, sua realidade e sua sanidade se dissolvendo em estática e crimes.

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Os bugs não param, infelizmente. O controle de câmera é sofrível e pode gerar momentos em que você fica preso em um loop quando muda a direção. Personagens podem sumir de seu campo de visão. Artefatos que deveriam ser interativos não são. Em outro ponto, sem saber para onde ir, não consegui retornar a determinado lugar onde acreditava ainda haver elementos importantes a serem descobertos. O jogo simplesmente faz com que meu personagem se comporte de uma forma estranha em sua locomoção e não avance. A animação trava e o temor de uma nova catástrofe técnica é maior do que o temor dos terrores ocultos em seu enredo.

Boreal Tenebrae acaba se tornando uma jornada em que limites são rompidos. O que é bug? O que é proposital? O que está acontecendo? Atravessar essas fronteiras exige coração forte, paciência e olhar aguçado. Ou uma boa dose de mescalina, talvez.

Ouvindo: The Human Abstract - Crossing The Rubicon
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Um comentário:

Davi disse...

Muito interessante, mas os bugs são bem desencorajadores.

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