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29 de abril de 2020

Eu Vi: Sonic - O Filme

Sonic

Não é segredo de ninguém que sou PC Gamer e pulei várias gerações de consoles. Na verdades, desde o distante Dynavision, nunca tive um console. Então, Mario, Samus, Battletoads, Contra, Bubsy ou outros personagens que fizeram a infância de meus conhecidos na mesma paixão não são um componente importante de minha bagagem cultural e isso é irreversível. O mesmo pode ser dito de Sonic, a quem jamais teria dado uma chance se não fosse uma certa criança debaixo do meu teto.

Porém, posso dizer que terminei Sonic - O Filme com uma legítima vontade de jogar um jogo do ouriço azul. O que não farei, é claro, porque não sou uma pessoa impulsiva. Mas a vontade estava lá e isso deve contar pra alguma coisa.

Essa é uma produção que tinha tudo para dar errado e fazer parte da longa lista de adaptações sofríveis de jogos. Era uma tragédia anunciada naquele primeiro trailer, que trouxe uma versão CGI do protagonista que será estudada durante anos nos cursos de animação como um exemplo do que não fazer. Em uma inesperada guinada nessa indústria que despedaça sonhos em velocidade supersónica, os executivos ouviram a voz das ruas e o design foi reformulado.

sonic-posterNa hora da verdade, Sonic - O Filme vence por preferir não inovar. Não há uma única gota de criatividade em toda a película, que segue a batida fórmula do protagonista humano insosso que vê sua vida mudar ao se associar com um ser falante simpático com dons especiais, com quem irá fazer uma viagem pelo país. Pode ser um trio de esquilos cantores, um ET vidaloka, um coelho roqueiro, um rato elétrico ou um tatu atômico e talvez um desses seja invenção minha. Esse tipo de filme busca se calcar no carisma do personagem surreal e o resto vem depois.

Felizmente, o "personagem surreal" da vez cativa pra valer, trazendo uma mistura de inocência, melancolia e alegria de viver ao lado de piadas bem escritas (em sua maioria). Outro ponto que julguei positivo é que o longa não busca ser uma cansativa metralhadora de piadas e tem o ritmo certo, aliando algumas de suas gags com referências ao universo dos jogos de onde Sonic busca inspiração. O filme não deixa escapar nem memes sobre o personagem.

O sentimentalismo, outro paradigma que também sempre costuma estar vinculado a produções com esse formato, é contido e igualmente bem aplicado, a ponto de não azedar. Sonic - O Filme é leve como seu herói azulado e não tem a pretensão de tentar tirar lágrimas de seu público (ao contrário de um certo filme baseado em monstrinhos colecionáveis).

Um herói simpático pede um vilão antipático e Jim Carrey entrega. Ou, deveria dizer, Jim Carrey se entrega. Apesar de ter construído sua carreira em cima de personagens malucos, beirando o insuportável, aqui seus exageros expressivos caem como uma luva. Se o personagem principal é um ouriço azulado hiperativo de outra dimensão, nada é absurdo e não há limites para a caracterização de seu Doutor Robotnik. As definições de excêntrico foram atualizadas e claramente o ator está se divertindo em divertir a gente.

James Marsden (o ex-Ciclope da finada franquia X-Men) também está bem à vontade como o comportado e quase unidimensional policial que se torna o melhor amigo do Sonic. Ele se empenha para tornar verossímil sua posição nesse universo, o que ajuda a tornar o filme e sua premissa menos tacanhos do que todos os outros títulos similares que vieram antes. Ele não é o saco de pancadas ou a escada de piadas que outros coadjuvantes já foram, o que costuma tornar esse tipo de produção exaustiva para qualquer um com mais de doze anos. A dinâmica entre Tom e Sonic é muito bacana de se ver. O mesmo não pode se dizer da atriz que faz seu interesse amoroso na trama, que trabalha no automático, até porque o roteiro não lhe oferece função alguma, exceto em um momento de dez segundos.

SONIC THE HEDGEHOG

Uma das grandes surpresas de Sonic - O Filme é a diversidade de sua trilha sonora. Quem esperava uma seleção de metal farofa ou uma trilha de hip hop contemporâneo irá estranhar a variedade de estilos sonoros. É uma pena que a trilha instrumental não tenha a energia dos jogos, mas há uma homenagem no epílogo, com uma faixa extraída diretamente da franquia.

Em um ano atípico, Sonic - O Filme periga se tornar a maior bilheteria de 2020. Não dá para dizer que foi merecido, mas também não dá para dizer que é injusto. É um longa-metragem que acerta sem se arriscar, que diverte sem se comprometer, que fala com os fãs dos jogos e com quem não conhece os jogos. Inofensivo, para o bem e para o mal, e que, ironicamente, passa rápido na tela. Atenção para as duas cenas no meio dos créditos (e a própria animação deliciosa dos créditos): Hollywood pegou gosto pela coisa e Sonic vai voltar.

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