Retina Desgastada
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31 de março de 2020

(não) Jogando: Darkest Dungeon

Darkest Dungeon 01

As garras pútridas da escuridão tentam se fechar sobre meus quatro heróis, um maltrapilho bando de aventureiros atraídos pela falsa promessa de fortuna e glória. Nas profundezas de uma mansão em ruínas, habitam somente abominações amaldiçoadas, bandidos traiçoeiros e horrores indizíveis que não podem ser desafiados. O cemitério será o destino de praticamente todos aqueles que ousarem atravessar esses corredores sujos.

Decadência. Fracasso. Trevas, Loucura. Darkest Dungeon não é um jogo para ser jogado, é um roda de tortura para ser sofrida, uma descida à derrota que gira lentamente e a cada rodada vai apertando cada vez mais, esticando ossos, rompendo ligamentos, arrancando gritos de sofrimento.

Tudo que você alguma vez ouviu falar sobre Darkest Dungeon é real. Esse é um jogo brutal, projetado do zero para te oferecer a ilusão de que a vitória é possível, enquanto joga dados nas sombras manipulados para te condenar. Ainda assim, por longas 11 horas, ou tortuosas 14 sessões documentadas e compartilhadas em um exercício de exibicionismo masoquista, eu perseverei buscando um Graal inalcançável.

Darkest Dungeon 03

Para quem não conhece, Darkest Dungeon é um jogo de RPG com combate tático por turnos em que um grupo de aventureiros explora as ruínas de uma mansão abandonada e amaldiçoada por horrores lovecraftianos. Agora que finalmente experimentei em primeira mão suas mecânicas e estética, posso afirmar com convicção que WARSAW é um plágio desarvorado que, pelo menos, é honesto em deixar claro que o sucesso não é uma opção.

Aqui, há várias mecânicas empurrando resultados negativos e o mero contato com os horrores da dessas salas e corredores vai lenta, mas inexoravelmente, dilapidando a sanidade de seus personagens, atribuindo desvantagens que são difíceis de remover ou acumulando efeitos negativos que podem levar ao total descontrole ou mesmo a um ataque cardíaco fatal. Ninguém escapa ileso de uma sessão e administrar corretamente a recuperação de seu time é quase ou mais importante que as decisões tomadas no calor das batalhas.

Isso torna Darkest Dungeon um jogo inclemente. Entretanto, esse é justamente o seu apelo: por quanto tempo mais sua inteligência, suas escolhas, sua sorte, irão manter seus guerreiros vivos e sãos? O jogador é constantemente desafiado a testar suas chances e sua sagacidade em empreitadas que podem ser aparentemente fáceis, mas que podem se transformar em uma carnificina após um único erro ou falha crítica. As lendas falam de jogadores que chegaram ao final, que triunfaram sobre a máquina de esmagar esperanças. Esses mitos sussurrados na internet atraem novas vítimas e a roda não para de girar.

Porém, ao contrário de WARSAW, aqui a estratégia de morde e assopra é muito bem equilibrada. Você sente que o jogo é difícil, mas não injusto. Para cada luta dura, há uma luta fácil. Para cada erro fenomenal, há um sucesso decisivo que infla seu ego e traz consigo a perspectiva de um triunfo. As engrenagens não são tão visíveis. Demorei horas para perder meu primeiro personagem. E outras tantas horas para perceber que meus recursos estavam se esgotando mais rápido do que se acumulando. O golpe final foi perceber que meus campeões preferidos e mais experientes tinham a mesma chance de sobrevivência de novatos que nunca viram batalha. A Morte ri para você da escuridão mais profunda.

Darkest Dungeon 04Darkest Dungeon 05

Fosse tão somente um título desafiador, Darkest Dungeon não teria permanecido por tanto tempo em minha mente. Ele vai além e transporta sua sensação de iminente derrocada para seus gráficos pesados nas linhas escuras, sua trilha sonora quase gutural e sua narração soturna. Não há um pixel no jogo que não seja sufocante, não há um ruído que não seja ameaçador, não há uma palavra dita que não mereça sua atenção. A atmosfera medieval da Idade das Trevas é recuperada e não abre espaço para um único fio de poesia. A vida é bruta e o destino de seus personagens não é nem a glória, nem a fortuna que eles imaginavam.

Criei histórias paralelas para meus personagens para tentar lhes oferecer um tom mais épico. Histórias de obsessões e vinganças. De um cuidador de cachorros disposto a derrotar a infame Sereia a qualquer custo, após abandonarmos nossa freira em suas garras em uma fuga nada heroica. A Sereia tombou, mas a luta cobrou o mais alto dos preços do homem e seu companheiro canino. Não há lugar para histórias aqui, apenas para o matadouro mal iluminado da masmorra mais escura.

Despeço-me do jogo, ciente de que talvez desistir seja a única vitória ao meu alcance. Que outros tolos valentes sejam atraídos por suas promessas.

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Um comentário:

Raphael Airnmusic disse...

Fiquei triste quando vi o (Não) do título, mas ao final do texto tinha um sorriso no rosto porque o texto é extremamente preciso em relação aos sentimentos que esse jogo evoca!

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