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21 de setembro de 2019

Reconstruindo Elliot Page

Ellen Page

David Cage, o controverso criador por trás da Quantic Dream, conta que Beyond: Two Souls começou com fotos de Elliot Page. Após participar de um funeral, o diretor do jogo começou a arquitetar uma história sobre vida e morte em sua mente e sobre a força da superação. Para ilustrar a personagem que estava imaginando, fez uma pesquisa na internet e a primeira imagem que chamou sua atenção foi uma do ator norte-americano com a cabeça raspada. Nascia ali Jodie Holmes.

Quanto mais Cage escrevia cenas e pontos importantes do que seria possivelmente seu melhor jogo, novas pesquisas por referências visuais levavam a Elliot Page. As palavras chaves que ele digitava sempre retornavam Elliot Page. Um ano depois de estudos e trabalho, o diretor tinha um roteiro com 2 mil páginas e um escritório com paredes repletas de fotos do ator. Dos oito anos até a idade adulta, Jodie Holmes era Elliot Page.

Em entrevista, Cage revelou o obstáculo que surgiu em seu caminho: "continuei escrevendo e colocando mais imagens de Elliot no meu roteiro. Depois de um ano escrevendo, eu tinha fotos de Elliot em todo o lugar. Comecei a perceber que isso poderia ser um problema. Porque percebi que teria que pedir ao Elliot para participar do jogo".

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O homem que havia trabalhado com David Bowie no pioneiro Omikron: Nomad Soul, sentiu o medo se alastrar diante da possibilidade de realmente encontrar Elliot Page na vida real. Em sua cabeça, ele era Jodie Holmes e nenhum outro ator poderia ser capaz de preencher aquele papel. O sucesso de Beyond: Two Souls dependia do seu muso aceitar a tarefa que aquele exótico diretor francês de um jogo iria lhe propor. Para todos os fins, ele era parte inseparável do projeto. "Se ele tivesse recusado, eu estaria com problemas. Porque não havia plano B".

Cage pediu a ajuda de seu diretor de elenco. Enquanto Heavy Rain foi praticamente realizado sem a presença de grandes nomes e produzido depois que os atores tinham sido selecionados, para Beyond: Two Souls o processo já havia sido iniciado. Cage precisava de Elliot Page. Ou, pelo menos, era sua firme convicção. Um encontro foi arranjado entre agentes e o ator compareceu para uma conversa.

O impacto inicial e o frio na barriga ficaram na memória do diretor: "era tão estranho vê-lo caminhando para a nossa mesa. Quando nos conhecemos pela primeira vez, eu realmente vi Jodie Holmes, não Elliot Page. Lembro-me de pensar enquanto ele caminhava para a nossa mesa, espero que, quando ele começar a falar, ele ainda seja Jodie Holmes, que ele não desapareça e se torne alguém completamente diferente".

Para sorte do diretor e de todos os jogadores que tiveram a oportunidade de contemplar sua atuação no jogo, Elliot Page aceitou o papel.

Imaginação Pura

Ao contrário do que se possa imaginar, trabalhar para um jogo eletrônico é mais do que apenas vestir uma roupa de captura de movimentos e recitar algumas linhas. No caso de Page, o roteiro era imenso. Não apenas Beyond Two: Souls é muito maior que um longa-metragem convencional como também o ator se viu obrigado a gravar cada alternativa de fala, cada caminho que poderia ser seguido pelo jogador. Tudo isso com 88 pontos luminosos grudados em seu rosto, vestindo uma roupa apertada e trabalhando diante de um cenário vazio, dentro de um quadrado laranja no chão e com 70 câmeras registrando cada gesto corporal.

Ellen Page 02

Em entrevista na época para o The Hollywood Reporter, ele explicou a sensação: "você não está trabalhando em sets ou indo para uma locação. É como ter seis anos de idade. Você tem que imaginar tudo. Você tem que se deixar levar completamente".

Em outra entrevista, Elliot Page explorou o lado desafiador do trabalho. Não bastava apenas entrar no personagem, mas ser aquela Jodie Holmes multifacetada que o jogador controla. Em determinado momento, ele pode dar uma resposta X e uma ação Y, para logo em seguida, gravar a mesma cena com outra postura, outra abordagem do jogador. Em suas palavras: "às vezes, a cena pode ser incrivelmente complexa ou intensa emocionalmente, então você não apenas está tentando estar nesse espaço e tem uma quantidade incrível de diálogo para memorizar, mas não é coeso, no sentido em que digo algo a Willem [Dafoe] e ele diz algo para mim e então eu digo algo para ele, e então dou uma parada, depois dou a outra resposta, depois dou uma parada e dou a outra resposta".

Ele descreveu o processo como a atuação plena, sem precisar se preocupar com câmeras ou luzes e onde todo seu corpo estava envolvido, não apenas o rosto. Com medo de que o resultado pudesse influenciar sua performance, Elliot Page evitou ao máximo se ver dentro do jogo. Ele temia que contemplar a si mesmo em formato 3D pudesse de alguma forma quebrar o encanto, uma espécie de retrato de Dorian Gray moderno. Ele temia que Jodie Holmes não correspondesse à forma como se imaginava.

Entretanto, foi inevitável. Em dado momento, Cage insistiu para que ele visse uma das cenas finalizadas, com o personagem virtual, o cenário, a música, tudo junto em seu estado completo. Sua reação foi a melhor possível ao finalmente conhecer a Jodie Holmes de Beyond: Two Souls. "Eu estava completamente deslumbrado. Acho que fiquei com medo de vê-la, porque como vou agir quando me vejo animado? Eu fiquei tão emocionado. Eu não podia acreditar no que estava olhando".

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Para Cage, não há mistério no processo: "é realmente sobre clonagem de uma certa maneira, mas acima de tudo, recriar a emoção que o ator deu no palco, em 3D no jogo". Por destino ou confluência criativa, musa e personagem se complementaram, um inverso do jogo, uma alma desta vez ocupando dois corpos. Cage estava certo: Elliot Page era Jodie Holmes.

Ouvindo: Alison Mossheart And Carla Assar - Tomorrow Never Knows

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