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12 de junho de 2019

(não) Jogando: Tales of the Neon Sea

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(publicado originalmente no Gamerview)

Cyberpunk é um subgênero da literatura de ficção-científica que vai além de letreiros de neon, implantes cibernéticos e violência exacerbada. Fala mais sobre nossos problemas atuais do que parece na sua hipercolorida superfície, e sua construção de mundo envolve um conhecimento das relações sociais e do impacto da tecnologia na ética de uma sociedade. Um bom jogo de cyberpunk precisa plugar suas sinapses nesse conteúdo ou correr o risco de ser limitado por sua estética – perigo corrido por Tales of the Neon Sea.

Felizmente, este game da dev chinesa Palm Pioneer é um adventure que nos oferece um universo cativante e bem elaborado, que levanta dúvidas importantes sem esquecer de seus aspectos visuais. É uma pena que não traga respostas e você seja obrigado a arrastar uma carcaça enferrujada de jogabilidade por onde quer que ande.

A Cidade que Pulsa

tales-of-the-neon-sea-box-coverComo tantas histórias que vieram antes na literatura noir (a qual o cyberpunk recicla), Tales of the Neon Sea começa com nosso protagonista em uma situação desesperadora, quase literalmente no fundo do poço. O arquétipo do fracassado, do homem medíocre em uma sociedade que não enxerga seu potencial se manifesta aqui. Porém, a trama logo em seguida retorna para dois dias no passado, para nos mostrar como o detetive particular ciborgue Rex se encrencou. Desse flashback jamais sairemos, mas estou me adiantando.

Como tudo em Tales of the Neon Sea, seu restabelecimento é lento. O nível inicial não empolga exatamente e a fase seguinte, já na residência do protagonista, traz visuais melhores, mas também não revela tudo que o jogo tem a oferecer. Ainda assim, sem que você perceba, a Palm Pioneer vai construindo ao seu redor um mundo intrincado, seja através de detalhes de noticiários, relíquias do passado guardadas em prateleiras e diálogos entre personagens. Quando finalmente se abre a porta para a cidade que pulsa, você está pronto para ser bombardeado com um jorro de estética e afundar nesse mar de neon.

Nesse futuro e nessa cidade indeterminados, robôs e humanos convivem em uma relação tensa. Embora os primeiros sejam reconhecidos como cidadãos, ainda há muita hostilidade e desconfiança em virtude de uma recente revolta que lhes garantiu direitos. Pela primeira vez, um robô está entre os candidatos à prefeitura. Apesar da cisão, esta é uma cidade de abandonados. Os ricos e importantes se mudaram para uma cidade maior e mais limpa que flutua no espaço e apenas os crucificados pelo sistema se arrastam pela cidade antiga. Entre eles, Rex (ex-policial condecorado que foge do seu passado no fundo de garrafas), uma gangue de felinos inteligentes, ratos cibernéticos, robôs de todo tipo, prostitutas, mendigos, oportunistas e outros espécimes na luta pela sobrevivência.

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Parça chamando pro rolê.

Nosso herói é um saudosista, um anacronismo em uma sociedade que evolui rápido demais. Seu corpo rejeita os mesmos implantes cibernéticos que o mantêm vivo. Seus aposentos são adornados com elementos de antigamente, incluindo um pôster de Lost. Uma armadura medieval está guardada no sótão. Para todos os fins, Rex é um estranho em uma terra estranha e seus únicos amigos são o gato William e um robô pessoal obsoleto. No seu caminho, haverá personagens igualmente complexos e exóticos, com diferentes motivações.

Por acidente do destino, ele se envolve em uma investigação de assassinato que esconde uma grande e complexa conspiração que está ligada ao rancor por robôs e o medo de uma nova rebelião. O que começa com um corpo abandonado no lixão de um beco escuro o leva a mergulhar nas profundezas da cidade esquecida, embalado por uma trilha sonora que remete ao excelente trabalho do primeiro Deus Ex e que traz "cyberpunk escrito em cada acorde. Ao seu redor, os gráficos da cidade impressionam e a Palm Pioneer merece aplausos pelo seu apurado talento para esculpir pixels e cores e nos trazer um ambiente urbano mais pungente do que muitos gráficos hiper-realistas.

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Uma cidade de múltiplas camadas.

Nós Gatos Já Nascemos Pobres, Porém Já Nascemos Livres

Tales of the Neon Sea peca por apresentar elementos demais em sucessão. Esse choque do futuro exibe a falta de uma direção mais precisa. Eles claramente têm uma história muito boa para contar e um universo muito interessante para nos mostrar, apenas não sabem exatamente como transformar isso em um jogo.

Entretanto, entre os vários elementos que podem parecer aleatórios ou desnecessários, a subtrama dos gatos da cidade é algo que merecia um jogo separado. Nesse mundo, gatos são mais inteligentes do que nós humanos somos capazes de observar e possuem suas próprias regras, sua própria linguagem e sua própria sociedade, ironicamente também polarizada por um conflito entre o novo e o tradicional. Nas vielas escuras e nos prédios abandonados, os gatos "de verdade disputam território com os "biogatos, frutos da engenharia genética. Há uma trégua em andamento, mas isso está prestes a ser alterado.

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#SEXTOU!

No comando do detetive, determinadas cenas ficam sem sentido e nos perguntamos o que está acontecendo. Porém, em alguns momentos do jogo, controlamos William, o misterioso gato que "adotou o protagonista como seu "dono. Através de suas lentes, enxergamos os meandros dessa sociedade paralela. Há felinos com pretensões humanas, felinos viciados em erva de gato, felinos valentões e até mesmo um "Don no melhor estilo mafioso. As ações desse mundo dos gatos impactam na aventura principal. É uma bem-vinda distração em Tales of the Neon Sea e é uma pena que uma subtrama tão rica seja tão pouco explorada e haja hiatos enormes entre cada visita.

Enquanto mundo cyberpunk, não há o que se reclamar de Tales of the Neon Sea. Talvez alguns erros de tradução e alguns erros de grafia das palavras em Inglês que deixam transparecer que esse não é o idioma nativo dos desenvolvedores. Mas são detalhes que você releva em um futuro onde neologismos e novas grafias podem ter surgido.

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Certos aspectos da sociedade nunca mudam.

Engrenagens de um Relógio

Se você leu até aqui pode ter estranhado a nota tão baixa. Acontece que Tales of the Neon Sea trava ao ignorar os ditames de jogos de adventure e se transformar em um emaranhado de puzzles dos mais diversos calibres, que não tem âncora com a narrativa e só servem para arrastar o título por horas a fio. Felizmente, não temos nada aqui do tipo "combine o rato, o chiclete e o fio dental para pegar a chave embaixo do sofá, e os itens são relativamente óbvios onde serão necessários. Entretanto, embora a maioria dos objetos interativos sejam sinalizados, fugindo do insano clicar de outros jogos de outrora onde você caçava pixels, existem momentos em que, sim, você terá que clicar em tudo e descobrir o que fazer, porque há objetos importantes que não estão sinalizados. Não há ninguém segurando na sua mão aqui e isso pode afugentar alguns jogadores.

A mecânica mais interessante do jogo só aparece após mais de uma hora de jogabilidade, o que exemplifica o excesso de interações diferentes que você precisará fazer antes de Tales of the Neon Sea finalmente mostrar a que veio. O sistema de investigação acaba aparecendo em outros momentos, onde você examina a cena de um crime em busca de pistas. É uma ideia que a gente já viu em alguns jogos da franquia Batman Arkham, mas que é executada de forma diferente aqui e cai como uma luva. Ao encontrar as pistas, porém, somos levados a um puzzle onde é necessário encaixar engrenagens em um relógio para fazê-lo andar e a metáfora me escapa completamente. Essa ausência de sentido entre o que precisa ser feito e a forma como você faz será a maldição de toda a aventura, muitas vezes resolvida por tentativa e erro.

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Como (não) atrair clientes e influenciar pessoas.

Com esta abordagem, os criadores de Tales of the Neon Sea conseguem transformar um brilhante mundo cyberpunk em uma sucessão de puzzles baratos e enfadonhos, com diversos mini-jogos de lógica arbitrários que não tem por que estarem ali. A narrativa passa para o banco de trás e em vários momentos eu nem mesmo sabia mais o que estava investigando, atrapalhando por tantas idas e vindas entre mapas para solucionar puzzles que seriam melhores para jogos de celular.

Para quem sobreviver a tantos desafios mentais cansativos (e o infame e desinteressante nível do esgoto), a Palm Pioneer premia com… um final abrupto. Tales of the Neon Sea é um jogo inacabado, embora não esteja em Acesso Antecipado no Steam. Depois de várias reclamações, a página do jogo na loja passou a exibir que se trata dos Capítulos 1 a 3 de uma história maior, uma informação que antes estava escondida na descrição. Na forma em que está, a narrativa não conclui nada, deixando o jogador abandonado na metade do caminho, perplexo e insatisfeito. Felizmente, os capítulos posteriores serão lançados gratuitamente ainda esse ano, mas podem chegar tarde demais para saciar a fúria de quem investiu tempo e dinheiro até agora.

Ouvindo: As I Lay Daying - Through Struggle
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