Nessa sexta-feira a saga de Gordon Freeman encontrou um final. Não o final que todos nós desejávamos, não um final que nós pudéssemos participar, não um final que realmente coloque um ponto final definitivo em sua trajetória, mas definitivamente o mais próximo de uma conclusão que nós seremos capazes de ver, provavelmente.
É uma sensação estranha, de encerramento de uma espera, de encontrar o cadáver de alguém dado como desaparecido e poder fazer seu enterro adequado. Mas também é contemplar que sua partida não foi com um silêncio, mas com um estrondo. Que jogo seria o Episode 3, que montanha-russa, que portentosa conclusão.
Mas o encerramento da missão de Gordon Freeman não é o encerramento da Valve. Entretanto, deveria ser.
Half-Life 3 é mais do que a conclusão da luta entre a Humanidade e a Combine (ou a percepção da inevitabilidade da derrota e um gosto amargo). Half-Life 3 é o mítico grande jogo da Valve, onde a empresa outrora genial desfrutaria de sua inegável posição no mercado para nos apresentar um novo sopro de vida ao gênero FPS, um novo caminho para narrativas, um universo pleno de boas ideias, um exemplo a ser seguido, um motor gráfico aberto para outros sonhadores. Não um texto, por melhor que seja, publicado na internet.
A Valve não quis assim. Coube a um ex-funcionário, cansado de esperar, apaziguar da melhor forma possível o desalento dos jogadores. A carta, a missiva de "Gertrude", é para o jogador. É para cada um de nós, uma forma de dizer "adeus" e mandar um recado para seus amigos que ainda estão na empresa:
Tempo bastante se passou para que poucos se lembrarem de mim, ou o que eu estava dizendo quando eu falava pela última vez, ou o que precisamente esperávamos realizar. Neste ponto, a resistência terá falhado ou conseguido, não graças a mim. Velhos amigos foram silenciados, ou caíram no caminho. Eu não conheço nem reconheço a maioria dos membros da equipe de pesquisa, embora eu acredite que o espírito de rebelião ainda persista.
Chama Que Se Apaga
Todos os escritores que trabalharam em Half-Life 2 ou Portal já se foram da Valve. A empresa engorda suas finanças com o faturamento do Steam e com o sucesso de Dota 2 e Counter-Strike. É um modelo perfeito de gestão, por que mudar, certo? Foi-se a paixão? Foi-se a chama criativa? Onde estão todos aqueles assimilados pela coletividade?
Não que a Valve tenha sido sempre genial. Ricochet não nos deixa mentir. Mas era uma desenvolvedora capaz de enxergar o potencial de um determinado nicho e expandi-lo ao máximo. Não foi a pioneira do FPS, mas o transformou. Catapultou um subgênero com Left 4 Dead. Elevou um mod e forjou os MOBA. Revolucionou a cena competitiva com CS. A atual onda de jogos multiplayer baseados em times com habilidades não existiria sem a herança de Team Fortress 2. Fora da criação de jogos, mudou para sempre a face da comercialização de toda uma indústria. Não é pouca coisa, não são poucos méritos.
E então ousou revolucionar o próprio PC, com suas Steam Machines. Tentou ser um dos pilares da Realidade Virtual com o HTC Vive. Se foram tentativas falhas, se não eram os jogos que queríamos (ou apenas eu queria) pelo menos eram indícios que ainda desejava algo mais, que estava pronta para lutar.
Até anunciar Artifact. Um jogo de cartas, igual inúmeros outros, baseado em Dota 2. Nem mesmo a plateia de Dota 2, fãs de seu universo, conteve a decepção diante do anúncio. O teaser do jogo tem 12 vezes mais dislikes do que curtidas no YouTube.
Eventualmente, Artifact pode triunfar. Alguém lá dentro da Valve acredita que existe espaço no cenário para mais um título e é certo que a empresa não mobilizaria cerca de 100 funcionários (segundo rumores) para seu desenvolvimento se não acreditasse que poderia obter êxito. A menos, é claro, que tenham ficado cegos, que tenham cometido um outro erro. Não seria a primeira vez. Mas, até onde consigo enxergar, é a primeira vez que a Valve parece ter perdido algo pior que a visão: a coragem de ousar.
Enquanto os cofres se enchem, a indústria vai mudando gradativamente. Quem não se adaptar terá o mesmo destino dos dinossauros, é uma certeza em qualquer setor. A hegemonia do Steam ainda é absoluta, mas não é definitiva, não é imutável. O sucesso de Dota 2 e CS:GO? Ainda é forte, mas sofreu seu primeiro abalo em anos:
O que resta à Valve agora? Anunciar Half-Life Battle Arena?
O Futuro?
A Valve também é conhecida por sua péssima capacidade de se comunicar com o público. Relações Públicas, um grande investimento de empresas com um quinto do seu talento, não está no orçamento deles.
Por isso a sessão de perguntas e respostas com Gabe Newell no Reddit em Janeiro foi tão importante: uma oportunidade anual de tentar quebrar o enigma dessa esfinge.
Além de garantir que a colaboração cinematográfica entre a desenvolvedora e o cineasta J.J. Abrams ainda está em andamento, Newell jogou um pouco de luz sobre os próximos jogos da empresa. Mas do jeito dele...
Perguntado diretamente sobre se a Valve ainda está trabalhando em um jogo single-player completo, limitou-se a responder com um lacônico "sim". Se esquivou de uma pergunta direta sobre se haverá um novo Left 4 Dead. Declarou que a desenvolvedora está produzindo um jogo completo para Realidade Virtual, mas não disse qual. Perguntado sobre Half Life 3/Half Life 2 Episode 3, apenas brincou que "o número 3 não deve ser mencionado".
Obviamente, os internautas não iriam sossegar e outro usuário perguntou se haveria alguma chance de um novo título ambientado no universo de Half-Life/Portal. A nova resposta de Gaben? "Yep".
Então, talvez, talvez, exista um sopro de esperança no ar.
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A Valve faz a mesma coisa. Ela atende a demanda que os gamers querem NA PRÁTICA, com suas carteiras, não o que eles postam no Facebook que gostariam