Passo 24 horas sem me manter informado sobre o mundo dos jogos e quando me dou conta, todo mundo e seu vizinho estão falando sobre Dragon Age 2. Para mim, que ainda estou esperando baixar o preço do primeiro, parece que foi ano passado que lançaram o jogo original. E foi mesmo. Mas a Bioware não perde tempo em serviço, já anunciou a continuação, enviou uma arte para a capa da Game Informer, confirmou o título e o enredo, já está prometendo um trailer com mais de um mês de antecedência e, vejam vocês, já está aceitando pré-venda! Eu não me espantaria se ainda essa semana fosse divulgado o nome do primeiro DLC.
Não me sinto habilitado a comentar as qualidades deste CRPG, então passo a palavra para o camarada Wasner Machado (que, aliás, não está nada contente com os novos rumos da Bioware):
"A Bioware confirmou hoje que Dragon Age 2 está sendo desenvolvido a todo vapor. A sequência terá gráficos inteiramente atualizados, uma nova direção de arte, uma pegada bem cinematográfica, e ainda conheceremos regiões completamente diferentes de Ferelden. Essas são as boas notícias. Agora, as más.
(...) Não é de surpreender que o antigo sistema de combate tenha ido para o saco. Apesar de ser excelente através do uso de mouse e teclado na versão PC, ele simplesmente não funcionava a contento nos consoles. E esse é um mercado precioso demais para ser desprezado por qualquer desenvolvedora. Ainda mais uma desenvolvedora que agora se encontra sob a tutela da Electronic Arts. Dessa forma, lá vamos nós para mais um nivelamento por baixo, em direção ao menor denominador comum.
(...) Você não poderá importar seu antigo personagem no novo título. Você nem mesmo poderá criar um personagem só seu. Não senhor. Mais uma vez seguindo os passos de Mass Effect, você receberá um personagem pronto. Um humano, no caso. E no máximo poderá decidir se ele será mulher ou homem.
(...) Eu sou um dos primeiros a concordar que o aspecto comercial é importantíssimo. Sem lucros, nada de novos títulos das franquias que amamos. Mas, a partir do momento em que essas franquias se descaracterizam tão completamente que se transformam em produtos completamente diferentes, isso não é, na prática, o mesmo que desaparecer? E se é assim, que vantagem há para os fãs dos jogos originais?"
Mexer em franquias é sempre mexer em um vespeiro, visto as mudanças empregadas no Fallout 3. Mesmo não tendo jogado o primeiro Dragon Age, não posso deixar de me sentir incomodado pelo fato da Bioware não permitir a importação de seu personagem para a sequência. Um dos melhores aspectos de Baldur's Gate 2 e um excelente método para estabelecer uma sensação de continuidade, é descartado na linha de produção.
Mas a decisão mais absurda, na minha opinião, é não permitir a criação do próprio personagem. Entregar um personagem pronto para o jogador é demonstração de avareza, autoritarismo e desrespeito a uma das tradições do RPG.
RPG ou Não RPG
Shamus Young, em um coluna recente no The Escapist, defende a teoria que o uso de diálogos com vozes nos RPGs matou a liberdade de escolha. A culpa pode então ser colocada no alto custo de desenvolvimento de um jogo onde todos os eventuais caminhos tomados pelo jogador precisam ter uma resposta previamente gravada em áudio. Esta gravação demanda que alguém escreva os diálogos, alguém duble as falas, alguém dirija os dubladores, alguém trabalhe em cima dos arquivos de som gerados. Para um jogo de 40 horas de duração, com quase infinitas opções disponíveis, temos uma conta estratosférica. A solução encontrada comercialmente seria reduzir o leque aberto para o jogador. Antigamente, na era dos RPGs de texto, sem falas gravadas, precisava-se apenas de alguém para escrever os diálogos. Com o espaço reduzido de armazenamento e o baixo custo de produção, a imaginação fluia mais solta. Dessa forma, os jogos atuais tendem a ser mais lineares. E, no caso de Dragon Age 2, a Bioware parece ter decidido demitir o pessoal que fazia a dublagem do personagem principal com voz de Elfo, Anão, etc.
O conceito de ter diferentes ponto de início para o jogo, um para cada raça no primeiro Dragon Age, também sofreu o mesmo destino. E não se trata apenas de economizar em sessões de gravação. Ao impor um personagem para o jogador, a Bioware arrisca trocar a liberdade de escolha por um roteiro mais direto e fácil de controlar. Tentar manter uma coerência em uma história onde o herói pode ser um Xamã albino, uma Arqueira perneta, um Bárbaro semi-analfabeto ou um Príncipe das Trevas com um fraco por Justin Bieber é uma tarefa para poucos e geniais criadores. Um grupo ao qual, inclusive, a Bioware fazia parte até algum tempo atrás. Ao engessar o personagem a um modelo específico, o impacto que a personalidade do jogador pode provocar no universo ficcional se torna restrito àquilo que foi moldado. A fórmula do herói pronto pode até funcionar: os RPGs japoneses tem feito isso desde o início dos tempos. E Gothic não me deixa mentir. Mas, por favor, faça com que este herói pronto não tenha qualquer significado, que ele seja uma folha em branco para eu preencher de acordo com as circunstâncias e minhas aptidões. O Herói Sem Nome da série Gothic não apenas não tem nome, como praticamente não tem passado! Tirando a aparência inicial dele, todo o resto pode ser alterado. Em Dragon Age 2, Hawke, o seu personagem, tem nome (cafona) e uma história pregressa.
Pergunte a qualquer jogador tradicional de RPG, aqueles que jogam com papel e dados, se eles gostariam de interpretar um personagem pronto. Não gostam. Eu já tentei. Todos odiaram. Ofereça a eles um mundo fantástico repleto de seres fascinantes como Elfos, Anões, Drows, Minotauros ou Ciborgues. E depois informe que eles terão que jogar como humanos e veja o resultado. Não é bonito de se ver.
A Bioware tem um respeitável histórico e não chegou à posição de liderança que tem hoje sem seus motivos. Talvez Wasner, eu e outros tantos sejamos jurássicos veteranos de Baldur's Gate que não se adaptaram aos novos tempos. Ou talvez, "no andar da carruagem, a Bioware será a Square Enix daqui a uns dez anos".
13 Comentários
Não que um título não possa ser excelente sem esse recurso. The Witcher e o próprio Mass Effect estão aí para provar que é possível fazer excelentes jogos dessa forma. Mas para mim o prazer de montar meu próprio personagem e "viver" na pele dele é uma das coisas mais importantes, e lamento que cada vez menos jogos possibilitem isso.
O jeito é torcer para que as previsões mais sombrias não se concretizem em relação a DA2... estou usando Mass Effect 2 como base de comparação, e isso não me deixa muito espaço para otimismo. Pelo menos no que diz respeito às suas características RPG.
Abração!
Não posso falar nada sobre Dragon Age pq não o joguei e nem pretendo. Agora, dizer que Mass Effect 2 "deixou de ser RPG e virou shooter" é um tanto equivocado, p/ dizer o mínimo.
Mass Effect sempre foi um híbrido de TPS e RPG com ênfase na trama. Assim como Deus Ex sempre foi um híbrido de FPS e RPG, diga-se.
Na verdade, até a parte TPS do primeiro Mass Effect foi meio negligenciada em favor da parte RPG, que contava com uma distribuição de pontos de skill desnecessáriamente complicada p/ newbies, trocentos zilhões de tipos de armas, armaduras e upgrades p/ os mesmos. Se vc souber o que está fazendo, pode até mesmo negligenciar seus companheiros e lutar sozinho, sem precisar pensar na utilização de skills ou de procurar um ponto estratégico p/ eles ou p/ vc. E isso até nas dificuldades Hard e Insane.
E foi exatamente isso que foi mudado no ME 2. Vc precisa pensar estrategicamente o uso de skills, sua localização e de seus companheiros e etc.
Se tivéssemos uma escala onde 10 aponta para Shooter e 0 aponta para RPG, ME2 estaria marcando 9, aproximadamente. Mass Effect 2 está naquela região de shooters com toques de RPG, como Stalker, Borderlands e Bioshock. Vou considerá-lo RPG só porque tem uma história parruda e personagens interessantes?
Aquino, veja esse link aqui, acho que vai lhe interessar!
http://www.pcgamer.com/2010/07/09/first-look-arcania-gothic-4/
Abraços!
Sobre customização, não entendo pq isto é um problema agora se nunca foi no passado. Os exemplos de RPGs onde vc praticamente cria seu personagem do nada até hoje são raríssimos, dado o número total de RPGs no mercado.
As opções de armas e armaduras realmente diminuiu se comparado ao primeiro ME, mas foram adicionadas vários upgrades p/ compensar. Já o inventário ainda existe. Apenas não na forma tradicional. Ao segurar Shift vc pode ver todas as armas que vc e seus companheiros carregam, mudá-las, adicionar efeitos às balas e etc etc etc. Armaduras e roupas casuais podem ser mudadas no seu quarto na Normandy, já que realmente sria muito esquisito um soldado carregando, além do armamento, todo seu guarda-roupa pela galáxia.
Se vc fala isso das batalhas, é pq ficou com a dificuldade fácil ou até mesmo a normal. Nas dificuldades Hard e principalmente a Insane (acredite, este nome não é por acaso) vc realmente precisa pensar muito bem em que skills vc e seus companheiros usam, como mover-se e/ou seus companheiros p/ flanquear inimigos e todas as táticas de guerrilha que vc puder pensar.
Como já falei ali em cima, ME não RPG nem TPS, é um TPSRPG. O que é algo bem diferente. Agora, não entendo como vc pode diminuir o "fator RPG" de ME pelo simples fato do inventário não estar nos padrões tradicionais e desconsiderar a história e seus personagens p/ o aumento deste "fator RPG". A história e personagens são as peças centrais de todo e qualquer RPG.
Sobre o fator história e personagens ser decisivo para considerar um título como um RPG, bem, a característica mais básica de um RPG é a criação e incorporação de um personagem próprio, e não apenas o fato do jogo possuir boa história e personagens. Se assim fosse, praticamente qualquer jogo poderia ser considerado um RPG. Por exemplo, os adventures da Lucas Arts poderiam ser considerados RPG, já que possuem boa história e personagens legais. Outros tantos jogos de aventura atuais também poderiam ser considerados como tal. Tenho certeza de quem você não pensa assim.
Grande abraço!
Uma analogia simples: se misturar-mos tintas de cor branca e preta, obteremos o cinza. Podemos claramente ver que cinza é mistura de preto e branco e tonalidade muda de acordo com a quantidade de cada cor "pai", mas cinza jamais será apenas branco ou apenas preto. No entanto, até pelo meu próprio exemplo, concordo com vc que este é um conceito por demais abstrato e sempre haverão diferentes formas de enxergá-lo.
Agora, pela sua lógica, grandes clássicos do RPG do SNES, PS1, PS2 e até alguns sucessos atuais, como Chrono Trigger/Cross, Star Ocean, Xenogears, Final Fantasy, Breath Of Fire, Shin Megami Tensei/Persona e a série "Tales Of", só p/ citar alguns, não podem ser considerados RPGs. A customização nestes jogos simplesmente não existe. Sua participação se resume a movimentar seus personagens, que já vieram prontos, com background completo, idéias e personalidades próprias, e lutar contra monstros e chefões. E, no entanto, estes jogos são cultuados como clássicos épicos dos RPGs até hoje por muitos.
Com relação ao seu argumento "branco e preto e cinza", entendo perfeitamente seu ponto de vista. Como disse antes, estamos falando mais ou menos da mesma coisa, apenas temos conceitos um pouco diferentes - e conclusões idem.
Sobre os RPGs citados, saiba que há de fato uma grande controvérsia sobre se eles são de fato RPG ou não. Muita gente questiona isso, e eu tendo a concordar com eles um pouco. Outros tendem a flexibilizar o conceito de RPG na base do "você não cria seu próprio personagem, mas pelo menos pode ditar grandemente a evolução dele". Ou seja, o jogo exibe operações de levelling (níveis) de um razoável grau de complexidade, e a customização/evolução do seu personagem é elevada - ou seja, apesar de começar com um mesmo personagem como todo mundo mais, o seu será praticamente único ao final do jogo - daí o fator "RPG".
Como disse antes, essas fronteiras são muito abstratas e de difícil definição, e os debates sobre o que é de fato um RPG e o que não é (um gênero diverso, porém contendo elementos típicos de um RPG de verdade) serão eternos.
Tenha certeza de que jamais esgotaremos esse assunto!
Abraços!