Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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28 de novembro de 2016

"This Is My Rifle..."

Marine Doom

Os anos 90 foram uma época esquisita. Os jogos eletrônicos estavam vivendo um novo alvorecer e ninguém sabia muito bem o que fazer ou o que pensar daqueles títulos que agora atingiam um "realismo" gráfico jamais visto na década anterior. Muita gente, dos dois lados do espectro, acreditavam piamente que poderiam ser utilizados como simuladores de combate.

Em 1995, o General Charles C. Krulak, comandante máximo do United States Marine Corps (USMC) baixou a ordem de utilizar ou criar jogos de guerra computadorizados para fortalecer "habilidades de tomada de decisão, particularmente quando tempo de treinamento real e oportunidades eram limitadas".

Foi então que um grupo de especialistas em simulações do Marine Corps Modeling and Simulation Management Office conseguiu colocar as mãos em um certo jogo que havia acabado de sair do forno da id Software... Controvérsias à parte, os fuzileiros navais norte-americanos abraçaram a ideia de usar Doom como ferramenta de aprendizado. Mas não aquele Doom que você baixava da internet ou comprava em disquinho, cheio de zumbis e esqueletos que cuspiam fogo. Aquilo ali não servia para os militares. Você não tem isso no campo de batalha.

Entra em cena o Sargento Daniel G. Snyder, modder e militar, que adaptou o jogo para lançar Marine Doom. O objetivo não era exterminar demônios, mas coordenar habilidades de "fogo simultâneo do time de suporte, proteção do encarregado da metralhadora, disciplina com a munição e cadeia de comando". Mapas foram criados do zero, com bunkers inimigos, trincheiras e arame farpado e o armamento trocado para o arsenal oficial dos fuzileiros.

Marine Doom 02

Marine Doom era um jogo cooperativo PvE, para quatro jogadores, com um comandante, dois suportes e um artilheiro que carregava a metralhadora, reproduzindo a estrutura padrão de uma unidade dos Fuzileiros Navais. A vida básica do personagem era reduzida para 20, de forma que um único tiro inimigo poderia ser fatal. Em contrapartida, a unidade inimiga mais fraca tinha 40 de vida. Não era um mod para os fracos, era um mod para fuzileiros.

Em 1997, um jornalista da Wired foi convidado para participar de uma demonstração de Marine Doom realizada por fuzileiros e ficou impressionado: "Eles se movem rápido. Eles conquistam posições, assaltam o bunker e neutralizam o inimigo enquanto sofrem o mínimo de baixas (...) Eu assisto, ouço e me maravilho com duas coisas: seu nível de imersão e seu trabalho em equipe impecável".

Na ocasião, os responsáveis pelo projeto explicaram a escolha de Doom como ferramenta: era rápido, em primeira pessoa, podia ser jogado em rede e era modificável. Na verdade, a própria id Software incentivava que as pessoas alterassem o jogo de todas as formas. Mas Marine Doom não é Doom: "... como você viu, não é um jogo frenético. A forma como você atravessa um cenário de Marine Doom e sobrevive é através de trabalho em equipe e ouvindo seu líder de unidade e fazendo o que se espera que você faça", explicou o militar encarregado da demonstração.

Marine Doom 03

Faltam informações sobre a implementação do mod do jogo em quartéis e porta-aviões. Logo depois, veio Quake, com seus ambientes em 3D e suporte a mais de quatro jogadores em rede local. Seguido por America's Army, o notório simulador militar gratuito e ferramenta de recrutamento desenvolvido pelo exército.

Mas Doom Marine ainda existe, disponível publica e oficialmente para download, como uma peça de museu de uma época esquisita.

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Um comentário:

Luiz Antônio disse...

Ótimo artigo. Sempre achei que esse papo de militares jogando vídeo game para treinamento era coisa de ficção científica. O título do artigo me lembrou da cena da "oração do rifle" do filme Nascido para matar (Full Metal Jacket) de Stanley Kubrick:

This is my rifle. There are many like it, but this one is mine.

My rifle is my best friend. It is my life. I must master it as I must master my life.

Without me, my rifle is useless. Without my rifle, I am useless. I must fire my rifle true. I must shoot straighter than my enemy who is trying to kill me. I must shoot him before he shoots me. I will...

Before God, I swear this creed. My rifle and myself are the defenders of my country. We are the masters of our enemy. We are the saviors of my life.

So be it, until there is no enemy, but peace! Amem!

Que na realidade é de autoria do Major General William H. Rupertus do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos.

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