Retina Desgastada
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1 de março de 2011

A Mão Direita da Teimosia

Hellboy é um dos meus personagens prediletos das histórias em quadrinhos, poucas vezes publicado por aqui por um preço acessível. A criação máxima de Mike Mignola tornou-se famosa graças a duas adaptações cinematográficas de incomum bom-gosto, nas mãos do cineasta Guillermo del Toro. O icônico personagem não teve a mesma sorte no mundo dos jogos, sendo protagonista do quase desconhecido Hellboy: The Science of Evil e do absolutamente desconhecido Hellboy: Dogs of the Night (lançado no Brasil como Hellboy: Asylum Seeker). Graças a este último jogo, vivi uma das experiências mais bizarras da minha vida e que marcou meu destino para sempre.

Hellboy - Cover Em uma data perdida no tempo, entre 2000 e 2001, tive a insólita oportunidade de encontrar o jogo Hellboy: Asylum Seeker vendendo em uma grande rede de varejo não muito conhecida por ter um acervo coerente. Diante de mim, estava um título do qual eu nunca ouvira falar em lugar algum, uma adaptação de um personagem até então obscuro do qual eu e meia dúzia de privilegiados conhecia. A um preço muito barato. Não hesitei e comprei na mesma hora, assombrado pelas possibilidades, tomado por uma febre desconhecida mas típica dos fãs. Não posso mais precisar com exatidão quanto tempo o jogo levou em minha prateleira, aguardando o momento exato de liberar seus efeitos sobre mim. Mas sei que no final de dezembro de 2001, eu estava sendo absorvido pela aventura do sinistro anti-herói.

Para aqueles que não conhecem o personagem, vale dizer que Hellboy é uma criatura das profundezas do Inferno, invocada pelos nazistas para tentar mudar o rumo da II Guerra Mundial e a iminente derrocada do Terceiro Reich. Entretanto, os ocultistas a serviço de Hitler foram manipulados pelo destino e trouxeram para o nosso mundo um demônio infante. A cerimônia profana também foi interrompida por forças americanas, que dispersaram os nazistas e resgataram a criatura. Naquele momento, o ser, o garoto do inferno, foi nomeado de Hellboy. Apesar de ter o tamanho de uma criança, Hellboy trazia na mão direita uma pesadíssima manopla de pedra que nada no mundo conseguia remover: a Mão Direita do Destino. Criado por um pesquisador do sobrenatural, Hellboy sobrepujou sua natureza infernal, se tornando um agente das forças do bem e desafiando constantemente os paradigmas.

O jogo foi meu primeiro contato com um survival horror, a despeito de alguns minutos com os demos de Alone in the Dark ou Resident Evil que não me marcaram. Também foi minha primeira oportunidade de controlar um personagem que eu já conhecia de outra mídia. Então, pouco importavam os gráficos abaixo da média ou a jogabilidade dura do título. Eu estava sendo absorvido... A chance de usar a poderosa Mão Direita do Destino contra zumbis em cenários escuros, cercado de malevolência e guiado por uma trilha macabra, era tudo o que eu poderia esperar naquela época.

Até o acidente.

Hellboy 02

Sem Dor, Sem Valor

No começo de Janeiro de 2002, um incidente com uma porta de ônibus provocou a fratura de um osso do meu dedo mínimo da mão direita. Ao contrário do que eu poderia supor, meu dedo não foi imobilizado pelo ortopedista. Minha mão inteira foi imobilizada dentro de um gesso de quase dois quilos, quente e desconfortável. Com uma infância típica de criança tímida e leitor compulsivo, eu nunca havia quebrado um osso na vida. E agora estava ali, com a mão direita transformada em um peso inútil por 30 dias. E justo quando o jogo estava ficando bom.

Recebi uma licença no trabalho e fiquei em casa todo o tempo. Tinha dificuldades para tomar banho. Tinha dificuldades para dormir. Tinha dificuldades para segurar um livro. Tinha dificuldades para fazer minhas refeições. Não conseguia usar o computador. Estava sendo consumido pelo tédio e pela apatia. Ao menor ato reflexo em que eu tentasse mexer meus dedos, uma dor lancinante repuxava lá do fundo da alma. E membros engessados, talvez vocês saibam, coçam. Coçam muito.

Inicialmente, tentei me acostumar com o incômodo. Ainda tinha o indicador e o polegar para fora do gesso, podia catar milho no teclado. Mas usar o mouse? Sem chance. Os dias de repouso foram se transformando em desconforto. As aventuras de Hellboy paradas, a me tentar.

Depois da primeira semana de sufoco, decidi que iria fazer de tudo para seguir em frente. Não iria aguardar 30 dias assistindo televisão. Eu iria me adaptar. E isso significa ter que jogar também.

Hellboy - MignolaInverti o mouse, coloquei-o no mão esquerda e remapeei os controles para botar utilizar meu indicador direito. Dez minutos de jogo aqui, sendo massacrado pelos inimigos, encarando a parede, indo na direção errada, clicando no botão direito quando eu queria o esquerdo, sentindo dores ao apertar o espaço com o polegar direito. Depois quinze minutos. Depois vinte. Depois uma hora. Considerando que cada nível de Hellboy: Asylum Seeker só tem um ponto para salvar e que o título NÃO salva automaticamente quando você muda de nível, você tem que imaginar que algumas partes eu joguei muitas vezes. Era quase um treinamento, um exercício doloroso de teimosia, um atestado de obsessão, uma luta contra a impotência. No fim de janeiro, eu estava jogando pelo tempo que quisesse, Hellboy e eu, cada um com sua pesada mão direita lutando contra o destino. E também estava navegando pela internet, escrevendo, usando o computador com naturalidade.

Em fevereiro, removi o gesso. Ao contrário do que eu poderia imaginar, não recuperei os movimentos da mão direita instantaneamente. Ela ainda doía, ela ainda tinha o tempo de resposta de Crysis rodando em um Pentium II. E minha licença tinha acabado. Felizmente, me colocaram no trabalho para fazer uma tarefas simples:  usar o Photoshop. Eu que já estava jogando com a mão esquerda, agora tinha que obter a precisão de um editor gráfico. Sorte que eu não era cirurgião. Aos trancos e barrancos, eu fui evoluindo, enquanto minha mão direita passava pelo penoso processo de fisioterapia e sacos de gelo. E, quando eu chegava em casa, lá estava Hellboy: Asylum Seeker.

Concluí o jogo no meio de fevereiro, tendo jogado perto de 70% dele usando a mão esquerda e dois dedos da mão direita. No trabalho, o Photoshop também foi vencido. Com o passar dos meses, minha mão direita foi normalizando, mas não agüentava mais longas horas de esforço, sendo prontamente rendida pela mão esquerda. Sem me dar conta, tinha me tornado ambidestro com o mouse. Enquanto muitos profissionais do ramo sofrem com o fantasma da Lesão por Esforço Repetitivo (a LER), eu dividia a carga entre as mãos. Com o tempo, convencionei que usaria a esquerda no dia a dia e a direita apenas para jogar. FPS nasceram para serem jogados com a destra, essa é a lei.

Hoje, eu trabalho todos os dias usando o mouse na mão esquerda, sem nenhuma perda de habilidade e inverto os botões em todos os escritórios que trabalhei. As pessoas me perguntam se eu sou canhoto e eu respondo: "não, só com o mouse". E pego um lápis e escrevo com a mão direita. Todos me olham como se fosse algum tipo de aberração. Talvez seja, talvez não. Mas, por enquanto, prefiro não contar pra eles o envolvimento de Hellboy naquele surreal janeiro de 2002.

Hellboy 01 P.S.: O jogo é tão desconhecido que todas as telas disponíveis no MobyGames, um dos maiores catálogos de jogos da internet, são minhas!

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2 comentários:

Carlos disse...

Otimo texto Aquino!! Parabens. Tambem sou "canhoto de mouse", hehe. Em 1990, meu pai comprou uma mesa de computador para canhoto "sem querer". Como computador era novidade, achei normal usar mouse com a esquerda.

Marcel C. Da Silva disse...

Ahh super normal!
Passei minha infância e adolescência com gesso em ambos os braços(e nas pernas), sei bem como é usar mouse com a mão esquerda hehe.É como jogar POD no modo difícil, damos tudo de nós, não parece suficiente, pensamos que não tem jeito, até que pegamos o jeito e tiramos o problema de letra!(Tanto que tenho até um mouse de canhoto guardado aqui).

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