Retina Desgastada
Idéias, opiniões e murmúrios sobre os jogos eletrônicos
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1 de fevereiro de 2010

De Fãs para Fãs

Cosplay não é a única manifestação de apreço de um fã por um determinado ícone cultural, ao contrário do que certos russos e americanos podem dar a entender. Existe uma outra forma de expressão chamada de fanfic.

Resumidamente, o fanfic é literatura feita por fãs para fãs. Ele acontece quando alguém com pendor para a escrita (ou não) decide pegar um personagem ou universo favorito e criar uma nova história a partir dali. Os alvos preferidos deste tipo de ficção são geralmente histórias em quadrinhos, animes, populares livros fantasia (como Harry Potter ou Senhor dos Anéis). Fanfics baseados em jogos eletrônicos são pouco comuns, talvez pela falta de uma estrutura narrativa mais elaborada em muitos deles ou porque seu público tem a infeliz tendência de dedicar mais tempo a este tipo de entretenimento e menos tempo à arte literária.

Um verdadeiro fenômeno cultural no exterior, fanfics ainda são pouco difundidos no Brasil. Assim como a própria literatura , para ser franco. E, sem literatura, não pode existir um derivado da literatura.  E que dizer, então, de fanfics baseados em jogos eletrônicos escritos por brasileiros? Raríssimos. Raríssimos.

Hellgast Tão raros que essa semana eu me surpreendi com um conto escrito por Caio Corraini, no blog Continue, inspirado e situado no universo do jogo Killzone 2. Tem suas falhas? Tem. Tem diálogos que poderiam ser melhorados? Tem. Tem frases clichê? Tem. Assim como 90% dos fanfics escritos no mundo. Eu não me espantaria se fosse o primeiro texto de ficção do autor que ele escreveu sem ser em uma sala de aula.

Mas, tem potencial para se tornar o começo de um sucesso? Tem.

Tem por que aponta um caminho interessante para os fãs de jogos eletrônicos no Brasil. Tem por que força a leitura e incentiva a escrita de outros. Tem porque é um texto escrito com paixão, com vontade de colocar para fora sentimentos provocados por um jogo. Tem por que Caio Corraini está fazendo mais e melhor do que  90% de seus possíveis críticos. A folha em branco (ou a tela em branco) é um desafio incomensurável, mais árduo que o jogo mais difícil. E ele encarou. Submeter sua obra à análise dos outros na internet é outro desafio monumental. E ele também encarou. E, vou ser sincero, tem potencial por que é bom! Tem tensão, fluência, poesia e fúria.

Que venham outros de Caio Corraini. Que venham outros Caio Corrainis.

ATUALIZAÇÃO (12/08/2015): Cinco anos depois e claro que o texto não está mais no ar. Nem o site Continue está no ar mais (apesar do nome...). Porém o próprio Corraini encontrou uma cópia arquivada no Wayback Machine.

Admirável Choque Novo

Por uma destas coincidências do destino, nessa mesma semana eu esbarrei em um fanfic diferente. Escrito por Shamus Young. Sobre System Shock. Com 246 páginas.

Para quem não conhece, Shamus Young é engenheiro de profissão, que bloga sobre jogos e tem uma série em quadrinhos publicada no The Escapist. Um dos melhores textos sobre jogos da web, dono de um humor cáustico e opiniões fortes, ele já apareceu por aqui no Retina com sua hilária explicação sobre o processo de criação do enredo de Indigo Prophecy e com sua crítica a Resident Evil 4, no Teste Admissional de Leon.

Shodan System Shock foi um clássico de 1994 que deu origem ao fantástico (e assustador) System Shock 2, ilustre membro da minha lista de favoritos. Por sua vez, Bioshock é o herdeiro espiritual da série. Sua história original narra a desesperada luta de um hacker pela própria vida contra uma Inteligência Artificial enlouquecida, a bordo de uma estação espacial no futuro. Nascia ali SHODAN, um dos maiores vilões da história dos jogos eletrônicos.

A origem do hacker sem nome é contada de forma rápida e rasteira em um vídeo introdutório de dois minutos no início do jogo. Inconformado com isso, Shamus decidiu escrever uma história de origem "mais elaborada" para o personagem. Ele colocou o texto online e o público perguntou se ele iria parar por ali. Sugeriram que, já que ele estava com a mão na massa, por que não seguir em frente e novelizar o jogo inteiro? O resultado é "Free Radical": um fanfic de 246 páginas, disponível gratuitamente.

No livro, Shamus se desvia do que é apresentado em System Shock e praticamente remixa o enredo, alterando, inclusive, o final. Se você já jogou o título, não há risco (sério) de spoilers.

Por razões óbvias de direitos autorais, "Free Radical" jamais será publicado em forma de livro. Mas esse nunca foi o objetivo de um fã.

Ouvindo: Video Games Live - Tetris Piano Opus No. 1
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2 comentários:

Caio Corraini disse...

Velho, eu nem sei mais se você mantém este espaço, mas estou passando justamente para lhe agradecer por tantos elogios.

Dei um google no meu nome pra procurar um texto antigo e me deparei com tudo isso. De verdade, muito obrigado!

Nunca mais tive espaço para escrever ficção (afinal, ser jornalista de games é o que paga realmente as contas) mas prometo voltar um dia.

Sem clichês haha

Abraços!

C. Aquino disse...

Seja bem-vindo, Caio! E vou ficar no aguardo por mais ficção!

Abraços!

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